Três irmãs virgens, um guerreiro apache — e uma decisão que mudou todas as vidas.
Três Irmãs, Um Guerreiro Apache E A Decisão Que Mudou Todas As Vidas
O vento de Okato Creek não soprava: varria. Entrava por baixo das portas como uma mão invisível, levantava a poeira do chão, batia nas tábuas gastas das casas e deixava no rosto das pessoas a mesma marca áspera que deixava nas pedras do Arizona. Mas naquela manhã, para Clara Miller, o vento parecia carregar outra coisa. Não era só pó. Era presságio.
Ela estava na varanda inclinada da cabana dos Miller, torcendo uma camisa velha que já fora branca antes de o sol, a miséria e a vergonha lhe roubarem a cor. Tinha os nós dos dedos rachados, a pele ferida pelo trabalho, e uma dor antiga instalada entre os ombros, como se ali carregasse não só um balde de roupa, mas a vida inteira das duas irmãs.
Dentro de casa, Silas Miller ressonava no chão.
O pai delas. O homem que um dia, muitos anos antes, lhe ensinara a distinguir constelações no céu. O homem que agora vendia ferramentas, promessas, dignidade e, quando já não restava mais nada, vendia o próprio nome. Bebia até perder a voz. Bebia até partir móveis. Bebia até esquecer que tinha três filhas. E quando finalmente caía, imóvel e pesado como um saco de farinha molhada, Clara agradecia a Deus, não por amor, mas por alívio.
May estava sentada no degrau mais baixo da varanda, afiando com uma faca de cozinha um pedaço de madeira seca. Aos dezoito anos, parecia feita de raiva e ossos. Tinha o cabelo escuro preso de qualquer maneira, os olhos sempre voltados para o horizonte, como se esperasse que a próxima ameaça viesse montada a cavalo.
Ruth, a mais nova, remendava a saia com dedos trémulos. Ainda havia nela uma doçura que o território não conseguira destruir. Clara temia por isso. Temia que o mundo, ao reparar naquela delicadeza, a esmagasse só para provar que podia.
Em Okato Creek, ninguém chamava as três pelo nome. Não eram Clara, May e Ruth. Eram as filhas do bêbado. As raparigas Miller. O lixo que a cidade tolerava porque ainda não encontrara uma forma limpa de o expulsar.
As mulheres da igreja levantavam as saias quando Clara passava, como se a pobreza pegasse. Os homens olhavam demasiado tempo. O xerife sorria com dentes demais. E todos, todos sem excepção, fingiam não ver as nódoas negras escondidas sob as golas altas.
Nesse dia, Clara viu a nuvem de poeira antes de ouvir os cavalos.
Dois homens vinham pela estrada.
— Entrem — disse ela, sem virar a cabeça.
May parou de talhar a madeira.
— Quem é?
— O xerife Pale. E outro homem.
Ruth levantou-se de imediato. May demorou um segundo, apenas o suficiente para enfiar a faca na cintura.
As duas desapareceram na penumbra da cabana, e Clara ficou sozinha na varanda, guardando a porta como se o seu corpo magro pudesse ser uma muralha.
O xerife Pale aproximou-se montado num cavalo baio, bem alimentado, mais robusto do que muita criança daquela cidade. Era um homem grande, com barriga de saloon, sorriso oleoso e olhos frios. Ao lado dele vinha um desconhecido de sobretudo escuro, chapéu baixo e esporas de prata que tilintavam como sinos de funeral.
— Bom dia, Clara — disse o xerife, sem tirar o chapéu.
— Xerife.
— O teu pai está em casa?
— Está a dormir.
— Então talvez seja altura de o acordar. Trouxe o senhor Hurst. Tem uma proposta que pode limpar as dívidas do velho Silas.
Clara sentiu o estômago fechar.
— Não precisamos de proposta nenhuma.
O estranho olhou para ela como quem avalia gado.
— São três, disseste? — perguntou ele ao xerife. — As três filhas?
Clara deu um passo atrás.
Então percebeu.
Não tinham vindo cobrar. Tinham vindo comprar.
A porta rangeu. Silas apareceu, cambaleante, com os olhos inchados, a camisa aberta, o hálito a álcool velho.
— Que se passa?
O xerife sorriu.
— Salvação, Silas. Cinquenta dólares pelos contratos das tuas filhas. Dois anos de trabalho na agência do senhor Hurst. Comida, abrigo, tudo cristão.
Clara virou-se para o pai.
— Não. Pai, não. Olha para ele. Sabes que isto não é trabalho.
Silas olhou para a bolsa de moedas que Hurst já segurava. O ouro brilhou ao sol. Depois olhou para Clara, para a porta onde May e Ruth se escondiam, e nos seus olhos não havia amor. Só ressentimento.
— Vocês comem mais do que valem — murmurou ele.
— Pai…
Ele empurrou-a com tanta força que Clara bateu com o ombro na ombreira.
— Cala-te! — berrou. — Eu aceito.
A bolsa caiu na poeira.
E naquele som, seco e pesado, Clara ouviu o enterro da infância das três.
Quando os homens partiram, Silas ajoelhou-se para contar as moedas. Clara entrou em casa. May estava pálida. Ruth chorava sem fazer barulho.
— Vamos embora — disse Clara.
May encarou-a.
— Agora?
— Agora.
Não houve despedida. Não houve carta. Não houve olhar para trás. Clara levantou a tábua solta do chão e tirou o pequeno embrulho onde guardava quatro dólares de prata e algumas moedas de cobre. Dinheiro escondido durante anos, centavo por centavo, para um médico ou para um caixão. Agora seria para a liberdade.
Puseram pão duro, maçãs secas, carne salgada e odres de água numa bolsa de lona. Esperaram até Silas abrir uma nova garrafa. Depois saíram pela janela dos fundos e correram para o mato seco, para longe da cabana, para longe do pai, para longe da cidade que fingira ser civilizada enquanto as devorava em silêncio.
O deserto recebeu-as sem piedade.
O calor esmagava. Os arbustos rasgavam-lhes as saias. As pedras feriam os pés. A cada estalo de galho, Clara pensava ouvir cavalos. A cada sombra, May puxava a faca. Ruth tentava acompanhar sem se queixar, mas o medo já lhe roubara a cor do rosto.
No fim da tarde, estavam no sopé das montanhas, longe o suficiente para a cidade parecer um pesadelo, perto o suficiente para ainda a sentirem respirar atrás delas.
— Eles vêm — disse Clara.
— O pai já tem o dinheiro — respondeu May, amarga. — Talvez nem se importe.
— O xerife ficou com parte. E Hurst não pagou cinquenta dólares por criadas. Eles vêm.
A noite caiu como uma lâmina. O deserto, que durante o dia parecia um forno, tornou-se frio e vasto. Encolheram-se debaixo de uma saliência rochosa, partilhando o casaco de lã. Coiotes uivavam à distância. Ruth tremia.
Ninguém dormiu.
Na manhã seguinte, os cascos chegaram com o vento.
Clara empurrou as irmãs para trás de um conjunto de rochas e espreitou. Lá em baixo, quatro homens seguiam o rasto. O xerife Pale vinha à frente.
— Subam — sussurrou Clara. — Para as pedras.
Correram encosta acima, sem fôlego. Encontraram uma passagem estreita junto a um desfiladeiro e seguiram-na até desembocarem num pequeno cânion fechado.
Foi ali que viram a carroça.
Estava escondida debaixo de lona. Perto da fogueira apagada havia um livro de contas caído no chão. E ao lado da carroça, empilhadas como ferramentas, estavam algemas de ferro. Pequenas. Pequenas o suficiente para os pulsos de Ruth.
May abriu o livro.
Nomes. Datas. Preços.
Sarah: quarenta dólares. Maria: sessenta. As raparigas Miller: cinquenta.
Clara sentiu o mundo inclinar-se.
Não eram fugitivas.
Eram mercadoria.
— Ele vendeu-nos — disse May, a voz quebrada pela fúria. — O nosso pai vendeu-nos para isto.
Uma pedra rolou atrás delas.
Três homens bloqueavam a saída do cânion. Não era o xerife, mas capangas dele, com rifles e sorrisos sujos.
— Ora, ora — disse um deles. — Vejam o que encontramos.
Clara empurrou Ruth para trás.
— Não se aproximem.
O homem riu.
— Não compliques, querida. Vamos levar-vos de volta.
— Mentiroso. Vimos a carroça. Vimos as correntes.
O sorriso do homem desapareceu.
— Então torna tudo mais difícil.
Avançaram.
May cortou a manga de um deles com a faca, mas recebeu um golpe que a atirou à poeira. Ruth gritou quando outro a agarrou. Clara lançou-se sobre ele, mas uma mão prendeu-lhe o pulso e torceu até a faca cair.
Por um instante, Clara viu o fim.
Viu a carroça. As correntes. As estradas onde mulheres desapareciam e ninguém perguntava por elas.
Então a sombra caiu do alto.
Um homem desceu da parede do cânion como se tivesse nascido da pedra. Aterrissou entre os capangas e as irmãs. Ergueu-se num movimento rápido. Era Apache, o peito marcado com cinza e argila, cabelo negro preso por uma tira vermelha.
Moveu-se com uma velocidade que Clara nunca tinha visto.
Um porrete de guerra atingiu o primeiro homem antes que ele levantasse a arma. O segundo levou uma facada no ombro e caiu aos gritos. O terceiro disparou, mas o tiro levantou apenas poeira. O Apache desviou-se e atingiu-o com a parte plana da arma. O homem caiu inconsciente.
O silêncio voltou.
O guerreiro virou-se para elas.
Clara puxou Ruth para o peito. May rastejou para junto das irmãs.
O homem observou-as com olhos escuros, indecifráveis.
Clara sabia o nome dele.
Toda a fronteira conhecia.
Taza.
O fantasma que os soldados não conseguiam apanhar. O renegado que se recusava a morrer numa reserva. O homem que Okato Creek transformara em monstro nas histórias contadas às crianças.
Mas, naquele momento, Clara não via um monstro.
Via o único homem que não as tinha vendido.
— Eles vão acordar — disse Taza, num inglês áspero.
Clara piscou.
— Obrigada.
Ele não respondeu. Olhou para as algemas e cuspiu no chão, perto dos homens caídos.
— Soldados vêm. Ou correm, ou voltam. Se ficam, morrem. Se vão à cidade, morrem.
Começou a afastar-se por uma fenda estreita na rocha.
— Espera! — gritou Clara. — Não sabemos o caminho. Vamos morrer lá fora.
Taza parou. Olhou por cima do ombro. Parecia cansado, mais do que feroz. Um cansaço antigo, de quem vive caçado desde que nasceu.
— Não sou ama — disse.
— Só até passarmos pelas patrulhas. Por favor.
Ele observou as três: as saias rasgadas, os sapatos impróprios, o terror, mas também a recusa de se renderem.
— Sem gritos — disse enfim. — Se gritarem, deixo-vos.
— Não gritamos — prometeu Clara.
Seguiram-no.
Passaram por cima dos corpos dos homens que tentaram possuí-las e deixaram para trás a carroça, o livro e a vida antiga. Clara caminhava por último, mantendo as irmãs entre si e Taza. À medida que a adrenalina passava, a realidade tornava-se mais pesada: estavam a entrar no deserto com o homem que a cidade chamava demónio.
Mas o demónio mancava um pouco da perna esquerda, vigiava o céu como um falcão e não olhava para trás porque sabia que elas o seguiriam.
Durante três dias, o mundo reduziu-se a pedra, sede e silêncio.
As botas de Ruth foram as primeiras a morrer. As solas abriram-se e balançavam a cada passo. Clara amarrou-as com tiras da anágua, mas o deserto comia tudo. Quando finalmente pararam à sombra de um zimbro retorcido, Clara viu o sangue nas meias da irmã.
— Deixa-me ver.
— Está bem — sussurrou Ruth.
— Mostra.
O calcanhar estava em carne viva. Clara sentiu a culpa subir-lhe à garganta.
Taza aproximou-se. Não havia ternura no rosto dele, apenas cálculo.
— Ela não anda assim.
— Tem de andar — respondeu May, irritada. — A não ser que tenhas uma carruagem escondida.
Taza ignorou-a. Cortou uma folha de iúca, esmagou a polpa, rasgou uma tira de couro da própria roupa e ajoelhou-se diante de Ruth.
— Lava.
— Temos pouca água — disse Clara.
— Lava ou apodrece. Depois ela morre.
A brutalidade da frase calou-as.
Clara gastou uma das últimas porções de água no pé de Ruth. A irmã mordeu o lábio, mas não gritou. Taza aplicou a polpa fresca e fez uma ligadura firme.
— Aguenta por agora.
May olhou-o com desprezo.
— Porque devemos ouvir-te? Levas-nos pelas piores pedras, fazes-nos andar como mulas.
— As mulas sabem ficar caladas — respondeu Taza.
May levantou-se, pronta a explodir, mas Clara colocou-se entre ambos.
— Chega. Sem ele, estaríamos na carroça.
May desviou o olhar, furiosa, mas pegou na bolsa.
Taza ensinou-lhes a sobreviver. Não com bondade suave, mas com precisão.
— Não bebam de uma vez. A água deve misturar-se com a boca. Se bebem depressa, suam. Se suam, morrem.
— Primeiro a ponta do pé, depois o calcanhar. Sintam o chão.
— As nuvens dobradas indicam vento. Temos de encontrar abrigo antes da noite.
Clara absorvia tudo. Percebeu que ele não era cruel. Era eficiente. Na cidade, a bondade era sorriso, esmola, uma palavra dita diante dos outros para parecer virtuoso. Ali, bondade era manter alguém vivo, ainda que com dureza.
Na quarta noite, fizeram uma fogueira pequena, protegida por pedras. Ruth, exausta, perguntou:
— Porque nos querem tanto?
Clara mexeu os feijões ralos.
— Por causa do livro.
May assentiu.
— Se contarmos o que vimos, eles são enforcados.
O silêncio tornou-se mais frio.
Taza estava fora do círculo de luz.
— Durmam — disse. — Antes do amanhecer, andamos.
Clara tentou dormir, mas acordou na parte mais funda da noite. A lua cobria o deserto de prata. Taza estava sentado numa rocha, imóvel, olhando para o vale.
Ela aproximou-se.
— Devias dormir — disse ele, sem se virar.
— Tenho frio.
Ele afastou-se ligeiramente, deixando espaço. Clara sentou-se perto, mas sem o tocar.
— Alguma vez fechas os olhos?
— Um de cada vez.
Clara olhou-lhe o perfil.
— Porque nos ajudas?
Taza demorou a responder.
— Tive uma irmã. Levaram-na há dois invernos. Soldados.
Clara sentiu o ar faltar.
— Ela morreu?
— Sim.
A palavra caiu pesada.
— Não a salvei. Salvo-vos a vocês. Não paga nada. Mas é alguma coisa.
Clara baixou os olhos para as mãos dele. Eram mãos de guerreiro, mas tinham tratado o pé de Ruth com uma delicadeza que ela não esqueceria.
— Obrigada — murmurou.
— Ainda não.
No dia seguinte, Ruth caiu.
O calor era sufocante, o ar parado como dentro de um forno. Estavam a atravessar terreno aberto quando a irmã mais nova cambaleou. Clara segurou-lhe o braço.
— Ruth?
Os olhos dela viraram-se. Caiu de joelhos e depois tombou na poeira.
— Ruth! — gritou May.
Taza chegou num instante, tocou-lhe o pescoço, abriu-lhe a pálpebra.
— Calor. Falta água no sangue.
— Demos-lhe o último gole há uma hora — disse Clara, em pânico.
— Não chegou.
Ele olhou para a próxima linha de árvores, ainda distante. Depois pegou Ruth ao colo.
— Carregas a minha mochila e o rifle — disse a Clara.
Ela obedeceu. O rifle queimava-lhe a mão. Taza caminhou com Ruth nos braços durante quase uma hora, cada passo roubando-lhe força. O suor escorria-lhe pelo peito. Clara via o esforço, via a dor antiga na perna, via a decisão de continuar.
Quando chegaram à sombra, Taza deitou Ruth no chão e encostou-se a um pinheiro, arfando. Clara molhou um pano com a pouca água que restava. Ruth abriu os olhos.
— Desculpa.
— Cala-te — disse Clara, quase chorando. — Descansa.
Taza levantou-se antes de recuperar totalmente.
— Perdemos tempo. Eles estão mais perto.
A perseguição voltou no fim da tarde.
Estavam num leito seco de riacho quando um tiro estalou do alto. A bala levantou areia perto do pé de May.
— Corram! — rugiu Taza.
Três homens apareceram na crista. Capangas de Hurst.
— Levem as raparigas! — gritou um.
Taza ficou para trás, disparando para lhes dar segundos. Clara arrastou Ruth pela curva. Mais tiros. As balas batiam na pedra. Então Clara ouviu o impacto.
Taza cambaleou.
Uma mancha escura espalhou-se junto às costelas.
— Taza!
Ela correu de volta, apesar dos gritos de May. Passou-lhe o braço por cima do ombro e arrastou-o para uma cavidade na rocha. Lá dentro, o cheiro a sangue encheu o ar.
— Deixa-me ver.
— Não é nada.
— Não mintas.
A bala rasgara-lhe a carne junto às costelas, mas não entrara fundo. Sangrava muito. Clara rasgou a anágua, pressionou o pano contra a ferida. Taza apertou-lhe o ombro, sem gritar.
— Porque ficaste? — perguntou ela, a voz a tremer. — Podias ter fugido.
Ele abriu os olhos, vidrados de dor.
— Porque tu… não és mercadoria.
As lágrimas vieram sem aviso. Clara engoliu-as.
— Eles vêm — sussurrou May da entrada.
Clara pôs a faca na mão de Taza e pegou numa pedra pesada.
— Ainda não acabou.
— Não — disse ele. — Ainda não.
Dias depois, chegaram a San Rafael, uma povoação miserável de adobe, tendas e lama. Precisavam de comida, pano limpo, pomada. Taza não podia entrar.
— Se virem um Apache com três mulheres brancas, disparam primeiro — disse.
Clara e May foram à loja. O comerciante era um homem velho chamado Elias Thorne. Assim que as viu, soube quem eram.
Clara gelou.
Ele colocou um cartaz em cima do balcão.
Procuradas por homicídio e roubo. As irmãs Miller e o renegado Apache Taza. Recompensa: quinhentos dólares.
May perdeu o fôlego.
— Quinhentos…
— Dizem que mataram homens da lei — disse Elias. — Dizem que o Apache vos raptou.
— Mentira — respondeu Clara. — O xerife vendeu-nos.
Elias rasgou o cartaz ao meio.
— Acredito. O xerife Pale vende raparigas há anos. A minha sobrinha desapareceu depois de ir trabalhar para Okato Creek.
Ele deu-lhes carne seca, café, pomada, cartuchos e uma garrafa de uísque para limpar feridas. Não aceitou dinheiro.
— Há um mensageiro de Hurst na cantina — murmurou. — Tem papéis. Se querem parar de correr, precisam de provas.
May ouviu aquilo como quem ouve uma chamada de guerra.
— Não — disse Clara, mas a irmã já desaparecera nas sombras.
May voltou uma hora depois com uma bolsa de couro nos braços, ofegante e triunfante.
Dentro havia outro livro de contas.
Nomes. Pagamentos. Datas. Xerife Pale. Agente Hurst. Um sargento do forte. Um juiz comprado. Uma rede inteira escondida atrás de distintivos, fardas e selos oficiais.
Na manhã seguinte, encontraram outro cartaz pregado numa cabana abandonada.
Elias Thorne fora assassinado.
A culpa fora atribuída a Taza.
Ruth tocou o papel, horrorizada.
— Ele ajudou-nos.
May cerrou os dentes.
— Mataram-no porque falou connosco.
Clara virou-se para Taza.
— Tens de nos deixar.
Ele olhou-a como se não tivesse ouvido bem.
— O quê?
— Vão caçar-te como um animal. Se ficares connosco, morres.
Taza agarrou-lhe os pulsos, obrigando-a a encará-lo.
— Tu não decides a minha vida. Eu escolho.
— Estão a mentir sobre ti.
— Mentem sobre mim desde que nasci.
Ele largou-a.
— Temos uma escolha. Fugimos para a neve e talvez morramos livres. Ou vamos a San Miguel.
— À mina? — perguntou May.
— Há uma entrega amanhã. Se libertarmos as raparigas, teremos testemunhas. Não três fugitivas. Uma dúzia.
— Isso é suicídio — disse Clara.
— É guerra — respondeu Taza.
Clara olhou para May, para Ruth, para o livro nas mãos. Já não eram as raparigas da varanda. Eram algo mais duro.
— Não fugimos — disse ela. — Lutamos.
A emboscada em San Miguel foi feita sob neve.
Taza conduziu-as por uma garganta estreita até verem a carroça da entrega. Homens armados, um capataz, duas raparigas escondidas sob lona. May cortou os arreios de um cavalo para criar confusão. Ruth abriu a porta traseira da carroça com mãos que já não tremiam. Clara apontou o rifle para os homens que tentavam aproximar-se.
— Corram! — gritou ela às raparigas presas.
Taza moveu-se como sombra e tempestade. Não procurava matar; procurava abrir caminho. Derrubava, desarmava, confundia. As raparigas fugiram para o bosque. Uma delas tinha o rosto inchado de tanto chorar, outra segurava uma boneca de pano contra o peito.
Mas a fuga teve preço.
Um tiro atingiu o pônei de Taza. O animal caiu, levando consigo munições, cobertores e água. Taza rolou na neve, levantou-se e correu até às irmãs.
Quando finalmente escaparam, tinham o livro, algumas testemunhas que correriam para outras famílias, mas perderam quase tudo o resto.
— É papel — disse Taza, olhando para o livro. — Não nos aquece.
— Mas acaba com a mentira — respondeu Clara.
San Miguel, a cidade mineira, estava a dois dias. Tinham fome, frio e um cavalo quase morto. Ainda assim caminharam.
Quando viram a fumaça das chaminés, pareciam fantasmas.
Taza parou antes da entrada.
— Eu fico aqui.
Clara virou-se.
— Não.
— Sou o alvo. Se entrar, disparam. Tu és uma mulher branca com provas. Sem mim, tens chance.
Clara pegou-lhe na mão.
— Disseram que nos raptaste. Se ficas nas rochas, eles vencem. Vem comigo. Caminha ao meu lado. Deixa-os ver que nós escolhemos.
— Vão matar-me.
— Então terão de me matar primeiro.
Entraram ao meio-dia.
A rua principal calou-se aos poucos. Mineiros, comerciantes e mulheres com cestos pararam. Viram três mulheres esfarrapadas e um Apache a caminhar em direcção ao tribunal. Clara manteve a mão no braço de Taza. Era uma declaração. Ele não me levou. Eu estou aqui porque escolhi estar.
O xerife Pale saiu do saloon, espuma ainda no bigode. Atrás dele apareceu Hurst, de casaco preto.
— O diabo voltou — disse Pale, mão no revólver.
— Nós nunca fomos raptadas — disse Clara, alto o bastante para a rua ouvir.
May levantou o livro.
— Temos os nomes!
O rosto de Pale perdeu a cor.
Hurst avançou.
— Isso é propriedade roubada do governo.
— É prova de crime — gritou Ruth, colocando-se diante de May.
A multidão murmurou. Alguém reconheceu uma data. Outro homem falou no desaparecimento da filha de um mineiro. A dúvida espalhou-se como fogo em palha seca.
Pale percebeu. Sacou o revólver.
— Ele está a puxar arma! Atirem no Apache!
Taza tinha as mãos vazias.
Clara colocou-se diante dele.
— Então atira em mim!
Os homens hesitaram. Pale não. Levantou a arma.
Taza moveu Clara para o lado com uma suavidade surpreendente e avançou. O disparo rasgou-lhe a manga. Em duas passadas, Taza prendeu o pulso do xerife, torceu, e a arma caiu na lama. Pale caiu com ela.
A multidão esperou a faca.
Esperou que Taza confirmasse todas as histórias.
Mas ele recuou.
— Eu não sou o animal — disse, olhando para os homens armados. — Ele é.
O juiz Halloway surgiu nos degraus do tribunal. Ruth correu até ele e empurrou-lhe o livro contra o peito.
— Leia.
O jornalista da cidade já escrevia furiosamente.
Hurst tentou fugir. Clara pegou no revólver caído e disparou para o chão diante do cavalo dele. O animal empinou. Hurst caiu dentro do bebedouro, encharcado e humilhado.
O juiz leu. Leu datas, pagamentos, nomes. Leu até o silêncio da praça se tornar pesado demais para ser ignorado.
— Prendam o xerife Pale — ordenou. — E o agente Hurst.
Quando as celas se fecharam, não houve celebração. Apenas frio, cansaço e o som distante da cidade a tentar reorganizar as suas mentiras.
— Está feito — sussurrou May, encostando a cabeça no ombro de Clara.
— Não — disse Taza. — Pale tem amigos. Hurst tem amigos. E eu ainda sou quem eles querem odiar.
Ele começou a afastar-se para as sombras.
Clara seguiu-o.
— Leva-me contigo.
Taza parou.
— Lutaste por segurança.
— Segurança foi o que quase nos matou.
— Não tenho nada, Clara. Nem tribo, nem casa, nem nome que a lei reconheça.
— Então construímos um.
May aproximou-se.
— Eu vou.
Ruth ficou nos degraus, dividida. Clara olhou-a.
— Ruth?
A irmã mais nova respirou fundo.
— Eu fico por agora. O médico da cidade precisa de ajuda. Quero aprender. Quero curar pessoas.
Clara sentiu uma dor funda, mas compreendeu. Ruth já não era a menina que ela precisava carregar. Era uma mulher a escolher o próprio caminho.
— No verão — prometeu Ruth. — Irei visitar.
Partiram antes do amanhecer: Clara, May e Taza. Usaram o dinheiro da recompensa para comprar ferramentas, mulas, sementes, mantas e uma carroça. Foram para Lost Creek, um vale duro, pedregoso, esquecido por todos porque não dava nada facilmente.
Por isso mesmo, servia.
Construíram a casa com as próprias mãos.
Taza cortava troncos. Clara calafetava as fendas com barro. May caçava, vigiava as cristas e aprendia a mover-se como sombra. Dormiram meses numa tenda, acordando com gelo no cabelo e mãos doridas. Mas cada parede levantada era uma vitória contra o pai que as vendera, contra o xerife que as caçara, contra a cidade que as julgara.
Uma noite, quando o telhado ficou pronto e o primeiro fogo ardeu na lareira de pedra, Clara levou Taza à porta. O céu estava violeta e laranja.
— Eu escolho-te — disse ela. — Não por uma noite. Não até passar o inverno. Para a vida inteira.
Taza olhou para a casa, para as mãos calejadas dela, para a vastidão em volta.
— Não tenho anel.
— Tens isto.
Ela apontou para a cabana, para o fogo, para o silêncio.
— Dás-me paz.
Ele tocou-lhe o rosto.
— Enquanto eu respirar, fico entre ti e a escuridão.
Não houve padre. Nenhuma igreja os aceitaria. Mas houve terra, fogo e promessa. E isso, para Clara, valia mais do que qualquer bênção dita por homens que nunca a tinham protegido.
A paz, porém, nunca vinha inteira.
Na primavera, seis vigilantes apareceram no vale. Homens de casacos compridos, armados, convencidos de que estavam ali para resgatar mulheres brancas de um selvagem.
May viu-os primeiro e desceu a correr.
— Seis. Estão a espalhar-se.
Clara pegou na espingarda. Taza no rifle. Ficaram na varanda.
O líder, um homem barbudo, cuspiu na poeira.
— Viemos libertá-la, senhora.
Clara engatilhou a espingarda.
— Eu não sou prisioneira. Este é o meu marido. Esta é a nossa terra. Virem-se.
O homem riu.
— Não há lei que case uma branca com um cão.
Taza falou baixo:
— Não puxes a arma.
O homem puxou.
May disparou primeiro, acertando no chão junto ao cavalo dele. Taza derrubou o chapéu de outro com um tiro limpo. Clara apontou ao peito do líder.
— O próximo não vai para o chão. Vai para ti.
Os homens olharam para a cabana, para o fogo cruzado, para a mulher que não tremia. Eram valentes apenas diante de presas fáceis. Ali não havia presas.
Recuaram.
— Vais para o inferno! — gritou o líder.
— A minha alma é assunto meu! — respondeu Clara.
No verão, Ruth chegou numa pequena carroça, trazendo livros médicos, ligaduras e um sorriso cansado. Abraçaram-se na varanda até rirem e chorarem ao mesmo tempo.
— Vou percorrer o território — disse Ruth. — Há famílias, mineiros, tribos, gente sem médico. Quero ajudar.
— É perigoso — disse Clara.
— Eu sou útil — respondeu Ruth. — Isso já me protege mais do que antes.
Naquela noite, sentaram-se todos na varanda. May afiava a faca, tranquila no seu papel de guardiã. Ruth lia um livro de medicina à luz do candeeiro. Taza esculpia um pequeno cavalo de madeira para uma criança que talvez um dia viesse. Clara encostou a cabeça ao ombro dele.
O vento atravessava o cânion, selvagem e solitário.
— É suficiente? — perguntou Taza.
Clara olhou para a casa, para as irmãs, para o homem que escolhera não fugir quando podia, para a vida difícil que tinham arrancado ao mundo com as próprias mãos.
Pegou-lhe nos dedos.
— É tudo.
E ali ficaram, enquanto as estrelas subiam sobre Lost Creek. Marcados, cansados, caçados por memórias que talvez nunca desaparecessem. Mas juntos. Livres da carroça, das correntes, do pai, da cidade e das mentiras.
No coração duro e implacável do Oeste, Clara compreendeu finalmente que a liberdade não era ausência de medo.
Era ficar.
Era escolher.
Era construir uma porta onde antes só havia fuga.
E naquela noite, com o fogo aceso atrás de si e a mão de Taza na sua, Clara Miller deixou de ser a filha do bêbado, a rapariga vendida, a fugitiva da poeira.
Tornou-se dona do próprio nome.
E ninguém, nunca mais, lhe pôde tirar isso.