“Quero te sentir perto”, sussurrou a virgem ao Apache viúvo — e uma paixão proibida despertou.
Na noite em que Evelyn Hart descobriu que sua família a vendera, a mesa de jantar estava posta como se fosse uma celebração.
Havia porcelana inglesa, talheres polidos até brilharem como facas e um arranjo de lírios brancos no centro da sala, tão perfumados que chegavam a dar enjoo. Do lado de fora, a chuva batia nas janelas altas da casa dos Vance, em Tucson, como dedos nervosos pedindo para entrar. Dentro, ninguém falava alto. Ninguém precisava. O silêncio daquela família era mais cruel do que qualquer grito.
Evelyn estava sentada entre o tio Arthur Vance e a prima Beatrice, com as mãos pousadas no colo, os dedos apertando o tecido do vestido azul-claro. Ela tinha apenas vinte e dois anos, mas naquela noite sentia como se sua juventude tivesse sido arrancada dela antes mesmo de poder começar. Do outro lado da mesa, o homem que deveria ser seu futuro marido mastigava devagar, observando-a como se avaliasse uma égua em leilão.
Caleb Harrington tinha idade suficiente para ser seu pai. Era rico, corpulento, dono de gado, de terras e de uma voz que parecia sempre dar ordens, mesmo quando fingia gentileza. Seus olhos pequenos nunca sorriam. Quando olhavam para Evelyn, não procuravam alma, pensamento ou vontade. Procuravam obediência.
— Está decidido — disse Arthur, limpando a boca com um guardanapo de linho. — O casamento será no mês que vem.
Evelyn ergueu o rosto, sentindo o sangue abandonar suas bochechas.
— O quê?
Beatrice desviou os olhos. A tia Margaret bebeu vinho, como se não tivesse ouvido. Caleb Harrington sorriu de leve.
— Seu tio fez o que era melhor para você, menina.
Menina. Aquela palavra a golpeou mais do que qualquer insulto. Evelyn olhou para Arthur, o homem que assumira sua tutela depois da morte dos pais, o homem que jurara ao lado do túmulo de sua mãe que a protegeria.
— O senhor prometeu que eu poderia escolher.
Arthur pousou o garfo com delicadeza.
— Escolher é um luxo para quem não tem dívidas.
Foi então que ela entendeu. Não se tratava de família. Nunca se tratara. Seu vestido, sua educação, suas aulas de piano, os domingos na igreja, as cartas dizendo que ela era “a última flor dos Hart”… tudo fora apenas verniz sobre uma transação. Arthur estava endividado. Harrington queria direitos sobre água, ações de mineração e uma esposa jovem o bastante para enfeitar sua casa. Evelyn era o preço.
— Eu não vou me casar com ele — disse ela.
O silêncio que se seguiu foi tão gelado que até a chuva pareceu parar.
Arthur se levantou devagar.
— Você vai.
— Não.
O rosto dele endureceu. Pela primeira vez, Evelyn viu o homem por trás do tutor educado: um negociante assustado, vaidoso, disposto a sacrificar qualquer coisa para não perder seu nome.
— Você pertence a esta casa enquanto eu for seu tutor.
— Eu não sou propriedade.
Caleb riu baixo.
— Toda mulher é propriedade de alguém, minha querida. A diferença é apenas quem assina o documento.
Evelyn se levantou, derrubando a cadeira. Beatrice levou a mão à boca, mas não disse nada. A tia Margaret finalmente olhou para a sobrinha, e o que havia em seus olhos não era compaixão. Era aviso.
— Sente-se, Evelyn.
— Não.
Arthur fez um sinal quase imperceptível para o corredor. A porta se abriu, e Silas Crow entrou.
Ele não era da família, mas circulava pela casa como se fosse uma sombra dela. Usava ternos escuros, botas limpas e um sorriso de homem acostumado a resolver problemas que não podiam ir aos tribunais. Evelyn sempre sentira medo dele, embora nunca tivesse admitido. Naquela noite, ao vê-lo avançar, soube que seu medo tinha razão.
— Leve-a para o quarto — disse Arthur.
Evelyn recuou.
— Tio, por favor…
— Você está histérica — respondeu ele, sem olhar para ela. — Amanhã conversaremos quando estiver mais calma.
Silas agarrou seu braço. O aperto foi tão forte que ela quase gritou. Evelyn olhou para a tia, para a prima, para todos naquela mesa onde havia crescido acreditando existir amor. Ninguém se levantou. Ninguém a defendeu. Naquele instante, a casa inteira se tornou uma cela.
Silas a arrastou pelo corredor. Ela lutou, tropeçou, chorou de raiva. Quando a trancou no quarto, ele se inclinou perto da porta e falou baixo, com aquela voz macia de serpente:
— Mulheres são como cavalos assustados, senhorita Hart. No começo esperneiam. Depois aprendem a rédea.
Evelyn ficou imóvel no escuro, ouvindo a chave girar. Do lado de fora, a chuva voltou a cair. Dentro dela, algo se partiu. Mas não era sua coragem.
Era a última ilusão.
Na madrugada seguinte, quando a casa mergulhou no sono pesado dos covardes, Evelyn pegou uma faca de cozinha que escondera na manga, abriu a janela e desceu pela treliça encharcada. Não levou vestidos, joias nem lembranças. Levou quatro dólares, um pente, um pedaço de carne seca e a certeza de que preferia morrer no deserto a ser entregue de véu branco ao homem que a comprara.
Três dias depois, o território do Arizona parecia decidido a cumprir essa promessa de morte.
O sol castigava a terra compactada, levantando ondas de calor que faziam o horizonte tremer. Evelyn cavalgava uma égua castanha que também parecia fugir de alguma tragédia antiga. As mãos da jovem estavam cheias de bolhas, o rosto coberto de poeira, e o vestido, outrora digno de salões respeitáveis, tinha a barra rasgada pelos arbustos espinhosos.
Quando Red Mesa surgiu adiante, agarrada à beira da civilização como uma cicatriz de madeira e adobe, Evelyn quase chorou de alívio. Havia uma igreja, uma pensão, um poço. Havia pessoas. Por um momento tolo, ela acreditou que pessoas significavam proteção.
A pensão era administrada por uma viúva chamada senhora Gable, uma mulher feita de ossos, regras e julgamentos. Ao ver Evelyn entrar sozinha, suja e sem aliança, seus olhos se estreitaram.
— Um quarto — pediu Evelyn, a voz rouca. — Só por esta noite.
— Onde está seu marido?
— Não tenho marido.
A senhora Gable examinou a poeira no cabelo dela, o medo nos olhos, o vestido arruinado.
— E para onde vai uma moça sozinha?
— Santa Fé. Tenho família lá.
A mentira saiu com gosto de ferro.
Evelyn colocou uma moeda sobre o balcão. A viúva olhou para o dinheiro, depois para ela.
— Esta é uma casa respeitável. Não quero confusão.
Evelyn pegou a chave com dedos trêmulos.
— Não farei nenhuma.
Mas a confusão já a seguia.
Ao anoitecer, sentada na beira da cama estreita, Evelyn ouviu a voz de Silas Crow subindo pela madeira do assoalho. O coração dela disparou tão violentamente que por um instante não conseguiu respirar.
— Estou procurando uma moça — dizia ele, com falsa preocupação. — Cabelos castanhos, viajando numa égua velha. Fugiu de casa. A família está desesperada. A pobre criatura tem tendência a fantasias.
A voz da senhora Gable amoleceu.
— Uma moça assim entrou aqui hoje.
Evelyn fechou os olhos. A cidade não era refúgio. Era armadilha. Silas contaria ao xerife que ela era louca, histérica, ingrata. Arthur diria que era sua tutora legal. Harrington abriria a carteira. E ela seria devolvida.
Ela não esperou.
Saiu pela janela dos fundos, desceu pela lateral da pensão e correu até o estábulo. Precisava da égua. Precisava desaparecer antes que Silas subisse as escadas com a chave na mão.
No estábulo, o cheiro de feno e esterco a envolveu. Ela encontrou a égua na última baia, mas antes que pudesse soltar a cabeçada, uma voz veio das sombras:
— Indo a algum lugar, senhorita Hart?
Silas apareceu sob a luz da lanterna, impecável, como se a poeira não ousasse tocá-lo.
Evelyn ergueu a faca.
— Fique longe de mim.
Ele sorriu.
— Sempre previsível. Eu sabia que viria buscar o animal.
— Eu não vou voltar.
— Vai, sim.
Silas avançou. Ela tentou golpeá-lo, mas ele segurou seu pulso com força cruel. A dor subiu pelo braço como fogo. Evelyn não pensou. Mordeu a mão dele até sentir gosto de sangue. Silas rugiu, soltando-a por um segundo. Foi o suficiente.
Ela correu.
Deixou a égua, a baia, a última luz de Red Mesa. Correu para a noite aberta, atravessando lixo, cercas, arbustos e pedras. Atrás dela, os gritos sumiram no vento. À frente, havia apenas escuridão.
A tempestade começou sem aviso. A chuva despencou como se o céu tivesse se rasgado. O chão seco endureceu, depois virou lama traiçoeira. Ravinas vazias se transformaram em rios violentos. Evelyn desceu uma encosta procurando abrigo, mas a terra cedeu sob seus pés.
Ela caiu no leito seco de um rio no exato momento em que a enchente chegou.
A água barrenta a atingiu como uma parede viva. Tirou-lhe o ar, arrastou-a, bateu seu corpo contra pedras escondidas. Evelyn engoliu lama, tentou gritar, agarrou uma raiz. A corrente puxava suas pernas com força monstruosa.
“Vou morrer aqui”, pensou.
Então uma mão agarrou seu antebraço.
Não era um toque delicado. Era ferro. Uma força a arrancou da água, arrastando-a pela margem lamacenta. Evelyn caiu de lado, tossindo, vomitando água e areia.
Um relâmpago iluminou a figura acima dela.
Era um homem alto, magro, de cabelo preto comprido grudado pela chuva. Usava couro escuro, trazia um rifle abaixado na mão e tinha o rosto marcado por ângulos severos, como se tivesse sido esculpido na própria rocha.
Evelyn recuou, aterrorizada.
— Não! Não me toque!
O homem não avançou. Apenas a observou.
Outro relâmpago revelou seus olhos escuros, atentos, cansados.
Apache.
Todas as histórias que ela ouvira na infância explodiram dentro dela. Monstros nas montanhas. Selvagens sem alma. Homens que roubavam mulheres. Evelyn procurou a faca, mas ela havia sido levada pela enchente.
— Por favor — sussurrou, tremendo. — Se vai me matar, faça logo.
O homem se agachou lentamente. Não havia crueldade em seu gesto. Havia cautela. Ele pegou um cantil, abriu e estendeu para ela.
Evelyn olhou para a água. Depois para ele.
— Beba — disse o homem, em inglês marcado por sotaque, mas claro.
Ela bebeu.
A água limpa lavou a lama de sua garganta. A vergonha veio depois, amarga. Ele a salvara, e ela o recebera com o medo ignorante que outros haviam plantado nela.
— Obrigada — murmurou.
Ele pegou o cantil.
— Terreno alto — disse, apontando para uma crista rochosa. — A água sobe.
— Quem é você?
— Taza.
Ela repetiu o nome em silêncio.
Taza tinha trinta anos e carregava nas costas mais solidão do que qualquer homem deveria suportar. Fora batedor, caçador, guia ocasional, e já pertencera a um povo, a uma esposa, a um acampamento de inverno onde havia risadas ao anoitecer. Agora caminhava como quem se acostumou demais com perdas. Salvara Evelyn não por confiar nela, nem por querer companhia, mas porque não conseguia olhar uma pessoa se afogando e seguir em frente.
— Venha — disse ele.
Evelyn olhou para a escuridão atrás de si, onde Silas poderia estar. Olhou para Taza, o homem que aprendera a temer antes de conhecê-lo. Então se levantou.
Ela o seguiu.
Caminharam por quase uma hora sob chuva fina. Taza se movia sem ruído, escolhendo pedras, contornando arbustos, lendo a terra como se fosse um livro. Evelyn tropeçava, escorregava, prendia a saia em galhos. Mesmo assim, ele não a chamou de fraca. Não reclamou. Apenas reduzia o passo quando necessário.
De repente, parou e ergueu a mão.
Evelyn congelou.
Na crista acima, três cavaleiros apareceram contra o céu carregado. Um deles tinha o chapéu de Silas.
— Estão me caçando — sussurrou ela.
Taza observou os homens.
— Estão nos caçando agora.
Ele a conduziu por uma fenda estreita entre rochas. Em certo momento, Evelyn precisou se espremer contra ele para passar. Sentiu o calor do corpo dele, o cheiro de couro molhado, fumaça antiga e chuva. O medo não desapareceu, mas mudou de forma. A proximidade daquele homem, que deveria ser ameaça, parecia a única barreira entre ela e os que queriam possuí-la.
Ao saírem da fenda, Taza soltou um som baixo de dor. Um corte profundo marcava seu antebraço.
— Você está ferido.
— Não é nada.
— Deixe-me ver.
Ele hesitou, mas estendeu o braço. Evelyn rasgou uma tira da anágua e enfaixou o ferimento com cuidado. Seus dedos tocaram a pele dele, quente apesar da chuva. Taza a observava com uma cautela quase triste.
Encontraram abrigo numa caverna rasa escondida por árvores retorcidas. Lá, enquanto o vento soprava do lado de fora, Evelyn finalmente disse:
— Não tenho para onde ir.
— Red Mesa não vai proteger você — respondeu Taza. — Vão dizer que foi levada. Vão me enforcar e transformar você em história.
— Que história?
— A mulher branca raptada pelo apache. Eles gostam dessa história. Serve para tudo.
Evelyn abraçou os próprios joelhos.
— Eu ainda sou boa — sussurrou, sem saber por que dizia aquilo. — Eu ainda sou… intocada.
Taza olhou para ela, e pela primeira vez algo parecido com raiva passou por seu rosto. Mas não era contra ela.
— Você está viva — disse ele. — É isso que importa esta noite.
A frase a atingiu com uma força estranha. Ninguém em sua família lhe dissera que sua vida bastava. Sempre havia algo a provar: pureza, obediência, utilidade, gratidão.
Taza desenrolou um cobertor e o colocou entre eles, perto o bastante para que ela sentisse calor, longe o bastante para que não se sentisse presa.
— Durma. Eu vigio.
Evelyn dormiu como quem cai de um precipício.
A manhã revelou um mundo imenso e impiedoso. As montanhas distantes tinham cor de ameixa esmagada, e o céu parecia grande demais para qualquer esperança humana. Taza já estava de pé, observando a vegetação rasteira.
— Andamos enquanto o ar está fresco.
Encontraram uma pequena nascente escondida entre rochas. Evelyn bebeu de joelhos, lavou o rosto, esfregou a lama seca da pele. Quando ergueu os olhos, viu Taza observando-a não com fome, mas com atenção protetora, como quem vigia uma chama pequena contra o vento.
Ela pegou sua bolsinha de moedas.
— Quero pagar pela ajuda.
Taza olhou para o dinheiro.
— Guarde. Não compra nada aqui.
O rosto dela ardeu. Ele tinha razão. Ela tentara transformar sua salvação em transação porque esse era o único idioma que conhecia.
— Desculpe. Eu não sei o que fazer.
— Aprenda.
A resposta foi dura, mas não cruel.
Caminharam o dia inteiro. À tarde, Evelyn perguntou se ele a levaria para seu povo.
Taza parou.
— Não.
— Por quê?
— Se eu chegar com uma mulher branca, soldados virão. Dirão que eu a roubei. Usarão você para cortar comida, prender jovens, expulsar famílias. Você é perigo para qualquer um perto de você.
Evelyn sentiu o peso daquilo. Até então se vira apenas como vítima. Não imaginara que sua simples presença pudesse ser usada como arma contra outros.
— Eu não escolhi isso.
— Eu sei. Mas continua sendo verdade.
Mais tarde, do alto de uma colina, Taza mostrou-lhe um vale queimado. Havia gado ao longe, cercas novas, arame farpado brilhando ao redor da água.
— Queimaram os arbustos para abrir pasto — disse ele. — Cercaram o riacho. A terra ainda lembra.
Evelyn olhou para as cicatrizes negras no vale. Crescera ouvindo que aquilo se chamava progresso. Agora via outra coisa: roubo com nome bonito.
Quando cavaleiros apareceram ao longe, Taza mandou que ela se escondesse sob carvalhos baixos.
— Vou deixar rastro para o sul.
— E se pegarem você?
— Então você continua.
Ele desapareceu.
Evelyn ficou deitada na terra, sentindo formigas subirem pela manga e o coração bater na garganta. Ouviu tiros. Depois silêncio. O medo tornou-se tão grande que parecia sólido.
Quando Taza voltou, suado, vivo, inteiro, ela quase chorou.
— Você voltou.
Ele pareceu não entender a surpresa.
— Eu disse que voltaria.
Naquela noite, sob uma saliência de pedra, Evelyn não conseguia acender o fósforo. As mãos tremiam demais. Taza ajoelhou-se ao lado dela e envolveu os dedos dela com os seus.
— Agora.
A chama nasceu pequena e amarela.
O gesto foi tão simples que a desmontou por dentro. Ele não tomou o fósforo dela. Apenas emprestou firmeza.
Perto do fogo, Evelyn perguntou:
— Você tem esposa?
A mão dele parou.
— Tive.
— O que aconteceu?
Taza olhou para as chamas.
— Morreu porque era apache. Homens vieram com papéis do governo. Disseram que nosso acampamento precisava sair. Quando não fomos rápidos o bastante, atiraram.
Evelyn sentiu lágrimas subirem.
— Ensinaram-me a odiar vocês — confessou. — Na igreja, nos livros, nas conversas. Diziam que vocês eram selvagens. Sem alma. Sinto vergonha.
— Também me ensinaram sobre vocês — disse Taza. — Que toda mão branca aberta quer tomar alguma coisa.
— Então por que me ajuda?
Ele a encarou através do fogo.
— Porque você não é o homem que matou minha esposa. E eu não sou o monstro das suas histórias.
O silêncio entre eles mudou. Não ficou leve. Ficou verdadeiro.
Na madrugada, Evelyn acordou de um pesadelo em que Silas a puxava para o fundo do rio. Sem pensar, agarrou o braço de Taza. Ele despertou imediatamente, mas não se afastou.
— Desculpe — murmurou ela. — Foi o sonho.
O vento uivava fora da saliência. A escuridão parecia cheia de mãos.
— Eu só… quero sentir você perto — disse Evelyn, a voz quebrada. — Só perto. Porque lá fora há homens que me levariam, e você é o único que ainda não tentou.
Taza ficou imóvel. Depois se levantou e sentou-se ao lado dela, encostado na rocha. Não a abraçou. Não a prendeu.
— Incline-se.
Ela apoiou a cabeça em seu ombro.
O corpo dele era quente, firme, real. Taza permaneceu rígido por alguns instantes, depois relaxou. Aquilo era intimidade sem posse. Presença sem exigência. Evelyn fechou os olhos e, pela primeira vez em muitos dias, dormiu sem se sentir mercadoria.
Ao amanhecer, a lembrança da noite pairava entre eles, delicada e perigosa. Taza manteve distância enquanto recolhia as coisas.
— Há um posto comercial ao norte — disse. — Um homem chamado Ramirez. Lugar misturado. Talvez ele ajude.
— Talvez?
— Talvez não atire em mim ao me ver.
Foram para o norte.
No caminho, encontraram Mara.
Ela surgiu entre as pedras carregando ervas, baixa, robusta, com cabelos grisalhos presos para trás e olhos duros como obsidiana. Era parente de Taza, talvez prima, talvez cunhada, ligada a ele por sangue e tragédia. Falou com ele em apache, rápido, áspero. Depois olhou para Evelyn.
— Você traz tempestade — disse em inglês. — Cheira a sabão de cidade e medo.
— Não quero fazer mal — respondeu Evelyn.
Mara soltou uma risada seca.
— Inocência mata mais que rifle.
Mesmo assim, levou-os a um pequeno acampamento escondido. Havia mulheres remendando roupas, crianças silenciosas, velhos junto a fogueiras baixas. Quando Evelyn entrou, o silêncio foi quase físico. Para eles, ela não era apenas uma jovem fugida. Era a cidade, a lei, a fome, a desculpa que soldados esperavam.
Mara apontou para a beira do acampamento.
— Sente. Não ande. Não fale se ninguém perguntar.
Evelyn obedeceu.
Depois de algum tempo, viu uma mulher idosa lutando para costurar um cobertor grosso. Aproximou-se devagar, tirou seu pequeno kit de costura e ofereceu a agulha.
— Posso ajudar?
A mulher cuspiu perto de sua bota. Evelyn estremeceu, mas não recuou. Estendeu a agulha de novo.
Por fim, a mulher empurrou o cobertor para ela.
Evelyn costurou por mais de uma hora. Depois ofereceu água a uma criança que tossia. Ninguém sorriu. Mas alguns olhares mudaram: do ódio para uma curiosidade desconfiada.
À noite, Taza trouxe pão de milho e carne seca.
— Eles não me querem aqui — disse Evelyn.
— Não.
— E você?
Ele olhou para as mãos dela, sujas de poeira e linha.
— Acho que você é problema, Evelyn Hart. Mas não acho que seja ladra.
Foi quase uma declaração.
No dia seguinte, o vigia assobiou.
O acampamento se desfez em movimento. Mães pegaram crianças. Velhos apagaram fogueiras. Homens buscaram armas. Lá embaixo, cavaleiros avançavam com rifles. Silas vinha à frente, acompanhado do xerife, peões e homens sedentos por violência.
— Ali está ela! — gritou Silas. — Os apaches a sequestraram!
A mentira virou pólvora.
Tiros explodiram. Um jovem caiu segurando a perna, e sua mãe gritou. Evelyn sentiu o mundo inclinar. A história que Silas contava valia mais do que qualquer verdade. Ele não queria apenas levá-la. Queria usar sua fuga para justificar sangue.
Silas a alcançou numa encosta e agarrou seu braço.
— Eu disse que você aprenderia.
Ele tentou puxá-la para a sela, mas Taza surgiu como uma sombra lançada pela pedra. Derrubou Silas do cavalo. Os dois rolaram no chão. Taza o golpeou, chutou a pistola para longe e encostou a faca em sua garganta.
Evelyn viu a mão dele tremer.
Silas sorriu, mesmo sangrando.
— Faça. Mate um homem branco. Dê a eles a guerra que querem.
Taza olhou para o jovem ferido, para as crianças escondidas, para Evelyn. Então puxou a faca de volta e jogou Silas ladeira abaixo.
— Corra!
Eles fugiram para os penhascos. Mais tarde, escondidos numa depressão, Mara disse o que todos pensavam:
— Entregue-a. Eles querem a garota. Se ela ficar, todos morrem.
— Ela não é animal para ser devolvido — respondeu Taza.
— Você escolhe uma estranha em vez do seu povo?
— Escolho não ser o monstro que dizem que sou.
Evelyn ouviu aquilo sentindo culpa e amor nascerem ao mesmo tempo, tão misturados que doíam.
Mais tarde, cuidou das costelas machucadas de Taza. Sob a camisa rasgada, havia hematomas escuros.
— Por que não deixou que me levassem? — perguntou ela. — Teria impedido a luta.
— Porque você não é cavalo para ser devolvido ao curral.
Evelyn tocou o rosto dele.
— Quero escolher minha vida. Quero escolher com quem fico. Quero você, Taza. Não como uma menina querendo protetor. Não como alguém se afogando querendo uma tábua. Quero você.
Ele fechou os olhos.
— Desde que minha esposa morreu, achei que desejar fosse traição.
— E agora?
— Quando você está perto, a tristeza desata um nó no meu peito. Isso me assusta mais que rifles.
Ele a beijou.
Foi cuidadoso, reverente, cheio de contenção. Evelyn não se sentiu tomada. Sentiu-se vista. E esse era um tipo de desejo que nenhum romance barato lhe ensinara a imaginar.
O uivo de cães interrompeu o momento.
— Trouxeram cães — disse Taza.
A neve começou a cair.
Por uma semana, caminharam pelo frio. A terra subia, endurecia, feria. Os cantis congelavam à noite. As botas de Evelyn se desfaziam. Taza carregava a própria dor em silêncio, mas ela percebia quando ele protegia as costelas, quando parava fingindo observar o horizonte apenas para respirar.
Um dia, Evelyn caiu de joelhos, exausta.
— Não consigo.
Taza voltou, tirou a mochila dos ombros dela e colocou sobre os seus.
— Levante.
— Eu posso carregar.
— O chão está duro. A mochila tira seu equilíbrio. Eu levo.
Não era discurso bonito. Era cuidado prático. E, para Evelyn, isso valia mais que poesia.
Dois dias depois, chegaram ao posto comercial de Ramirez. Estava fechado. Um aviso do xerife pregado na porta dizia que abrigar fugitivos e “hostis” era crime.
— Eles adivinharam para onde iríamos — disse Taza.
Do galpão, surgiu Elijah Boone, um homem negro alto, de barba grisalha e olhos cansados.
— Entrem antes que alguém veja.
Dentro do galpão, havia fogo baixo e café forte. Elijah contou que Ramirez fugira após ameaças. Contou também a verdade maior: Harrington queria os direitos de água do vale. Enquanto os apaches permanecessem perto do riacho principal, ele não poderia represar a água para o gado. Uma mulher branca “sequestrada” seria desculpa perfeita para chamar o exército.
Evelyn sentiu uma raiva limpa subir.
— Eles estão me usando.
— Como ferramenta — disse Elijah. — E se você falar, a história deles desmorona.
— Então eu falo.
— Precisa de tribunal de verdade. Prescott. Juiz federal.
Prescott ficava longe. Mas fugir já não bastava. Eles precisavam de prova.
Quando partiram, Elijah lhes deu farinha, cobertores e aviso:
— Não deixem que tirem sua fibra, garota.
A notícia de que Elijah os ajudara custou caro.
Dias depois, do alto de uma crista, Evelyn viu fumaça negra no posto. Pelo binóculo de Taza, enxergou homens ao redor do galpão em chamas. Elijah estava amarrado a uma roda de carroça.
Evelyn caiu de joelhos.
— É minha culpa. Todos que me ajudam se machucam. Eu sou uma maldição.
Taza segurou seu rosto com força.
— Olhe para mim. Isso é uma armadilha. Eles querem que você carregue a culpa pelos pecados deles. Os homens que o ferem são culpados. O homem que ordenou é culpado. Não pegue o pecado deles e chame de seu.
As lágrimas congelaram no rosto dela.
— Então não vamos só correr — disse Evelyn. — Precisamos de documentos. Harrington deve escrever tudo. Homens assim confiam mais em papel do que em pessoas.
Taza entendeu.
— O rancho Barquet.
— Vamos até lá.
— É uma fortaleza.
— Então entramos como sombras.
O rancho parecia uma ferida iluminada no escuro. Havia cães, peões, lanternas, risadas bêbadas. Evelyn usava casaco masculino e chapéu baixo, o cabelo escondido. Taza pintara o rosto com lama e cinza.
Entraram pela porta dos fundos da casa principal. No escritório, mapas do vale cobriam as paredes, com linhas vermelhas cortando terras de reserva. Evelyn vasculhou gavetas, encontrou recibos comuns, contas de ração, contratos de gado.
Então viu uma tábua solta sob a estante. Com a faca, levantou a madeira. Havia um livro de couro escondido.
Ela o abriu.
Pagamentos ao xerife. Dinheiro ao agente indígena. Despesas de Silas para “recuperação do ativo”. Mapas falsificados. Subornos. A palavra ativo ardia na página.
— Sou eu — sussurrou.
— Leve — disse Taza.
Quando se viraram, Silas estava na porta com um revólver.
— Eu sabia que você voltaria ao pote de mel.
Taza se colocou à frente de Evelyn.
— Calma, apache — disse Silas. — Eu furo você antes que puxe a faca.
Ele olhou para Evelyn, suja, disfarçada, firme.
— Veja o que virou. Uma moça de família brincando de fora da lei. Acha que alguém vai querer você depois disso? Eu sou o único que ainda aceitaria mercadoria danificada.
Evelyn saiu de trás de Taza.
— Meu valor não cabe nas suas mãos, Silas. Prefiro ser danificada e livre a ser inteira e pertencer a um cachorro como você.
O rosto dele se deformou.
Taza chutou a mesa contra as pernas de Silas no instante em que o disparo explodiu. A janela se estilhaçou. Homens gritaram do lado de fora. Taza avançou, e os dois se chocaram contra a parede. Silas acertou as costelas machucadas dele. Evelyn pegou um abajur de latão e golpeou Silas na cabeça.
Taza o derrubou. A faca voltou à garganta do inimigo.
— Faça — sussurrou Silas, sangrando. — Vire o selvagem que eles temem. Meu sangue chama o exército.
Taza olhou para Evelyn. Ela segurava o livro contra o peito e, nos olhos, pedia futuro, não vingança.
Ele bateu o cabo da faca na têmpora de Silas, deixando-o inconsciente.
— Vamos.
Lá fora, soltaram os cavalos do curral, criando caos. Homens caíram, lanternas se apagaram, tiros cortaram a noite. De uma sombra distante, um rifle disparou contra o atirador que os perseguia.
— Mara — murmurou Taza.
Ela os seguira.
Mas os homens a cercaram. Evelyn viu quando a puxaram das pedras, quando a golpearam. Taza quis voltar.
— Não! — Evelyn agarrou seu braço. — Se morrermos, ela morre também. O livro é a vida dela agora.
Taza gravou a cena nos olhos e correu.
Chegaram a Prescott três dias depois, sujos, feridos, quase fantasmas. A cidade já ouvira a versão de Silas: ataque apache ao Rancho Barquet, mulher branca ainda desaparecida, selvagens hostis.
No tribunal territorial, o escrivão olhou Evelyn com desprezo.
— O departamento de vadias fica mais abaixo.
Ela bateu a mão no balcão.
— Meu nome é Evelyn Hart. Não fui sequestrada. Vim denunciar Silas Crow, o xerife de Red Mesa e o Rancho Barquet por cárcere, agressão, corrupção e conspiração para provocar guerra.
O homem empalideceu.
Um advogado chamado Matthew Sterling ouviu a história. Era desleixado, cheirava a uísque e papel velho, mas seus olhos se acenderam ao ver o livro.
— Isto é vespeiro — disse. — Mas o juiz Blackwood odeia corrupção mais do que odeia índios. E, neste território, isso já é raro.
A audiência foi marcada.
O tribunal lotou. Mulheres cochichavam atrás de leques. Homens olhavam Evelyn como se quisessem medir quanta vergonha cabia nela. Harrington estava presente, pesado, frio, cercado por advogados.
No banco, Evelyn contou tudo: o contrato de casamento, a fuga, Silas, Red Mesa, Taza, o acampamento atacado, Elijah açoitado, o livro escondido.
O advogado de Harrington tentou destruí-la.
— A senhorita compartilhou cobertor com esse apache?
O salão prendeu a respiração.
— Compartilhei — disse Evelyn. — Ele dividiu seu cobertor para que eu não morresse congelada. Deu-me comida quando eu tinha fome. Carregou minha mochila quando eu não podia andar. Se o senhor pergunta se ele agiu como homem, eu respondo: foi o único neste território que agiu como cristão.
Murmúrios explodiram.
Depois Taza falou. Recusou jurar pela Bíblia.
— Direi a verdade pelos mortos.
Falou de sua esposa, Nalin. Do acampamento tomado. Dos papéis que transformavam lares em invasões. Não implorou. Não se enfeitou. Apenas disse:
— Não roubei esta mulher. Ela escolheu fugir. Eu escolhi não deixá-la aos lobos. Se isso é crime, sua lei está quebrada.
O juiz suspendeu a reivindicação de água de Harrington, ordenou investigação federal e mandou prender Silas e o xerife. Mas não libertou Taza completamente. Determinou custódia enquanto apuravam a “confusão” no rancho.
A vitória era de papel, e papel rasga.
Naquela noite, Evelyn estava numa pensão protegida por um guarda pago por Sterling. Um bilhete fora empurrado sob a porta: amante de índio.
Quando passos pararam do lado de fora, ela pegou a faca.
A porta se abriu.
Era Taza.
— Sterling me tirou sob fiança — disse ele. — Disse ao juiz que, se eu passasse a noite na cadeia, não estaria vivo amanhã.
Evelyn abaixou a faca.
— Entre.
Ele entrou, mas ficou perto da porta.
— Vou vigiar daqui.
— Não — disse ela, aproximando-se. — Não perto da porta. Não do outro lado do quarto.
Segurou a mão dele.
— Quero você perto, Taza. Perto o bastante para eu saber que você é real. Perto o bastante para que a manhã não me convença de que sonhei.
A contenção dele se rompeu. Ele a puxou para si, e o beijo que se seguiu não era mais apenas consolo. Era escolha. Era fome de vida depois de tanta morte rondando. Eles não falaram do futuro, porque o futuro ainda era uma ponte frágil. Naquela noite, bastou que nenhum dos dois estivesse sozinho.
O acordo veio dias depois.
Harrington, pressionado, retiraria as acusações, abandonaria temporariamente a reivindicação sobre a água e entregaria Mara viva. Em troca, Taza deixaria o território por algum tempo e não moveria processo direto contra o rancho. Era justiça imperfeita, marcada pelo poder de quem ainda comprava silêncios. Silas fugira, talvez para o México.
— Aceitamos — disse Taza, porque Mara estava viva.
Resgataram-na ferida, mancando, o rosto inchado, mas com os olhos intactos. Ela olhou para Evelyn sem ódio pela primeira vez.
— Você custou caro — disse Mara.
— Eu sei.
— Mas pagou também.
Não houve abraço. Para Mara, aquilo teria sido mentira. Mas houve reconhecimento, e às vezes isso é mais raro.
Evelyn e Taza foram para o sul, até uma região de fronteira onde a terra era dura demais para os gananciosos desejarem e longe demais para a lei fingir cuidado. Encontraram uma cabana abandonada perto de uma curva do rio. Metade do telhado estava caída. As paredes tinham buracos. Cobras moravam perto do fogão velho.
— Serve — disse Taza.
E serviu.
Eles trabalharam até as mãos sangrarem. Cortaram salgueiros, carregaram água, taparam frestas com lama, ergueram cercas pequenas. Evelyn aprendeu que romance no Oeste não tinha violinos: tinha bolhas, unhas quebradas, feijão queimado e riso cansado no fim do dia.
Ela começou a ensinar crianças num povoado próximo de mexicanos, mestiços, pimas e famílias empurradas para a borda do mundo. No começo desconfiaram dela. Mas Evelyn escrevia cartas, lia contratos, ajudava viúvas a responder escritórios de terras. Aos poucos, pagaram-na com ovos, leite de cabra e respeito silencioso.
Taza também começou a voltar a si. Caminhava sozinho pelas cristas antigas. Um dia, ao voltar, sentou-se junto ao fogo e tocou a conta azul no pescoço.
— O nome dela era Nalin.
Evelyn ficou quieta.
— É bonito.
— Ela era paz — disse Taza. — Por muito tempo achei que amar outra pessoa seria apagá-la.
— E agora?
Ele olhou para o fogo.
— Agora sei que o coração não é copo que se enche uma vez. É rio. Continua correndo.
Evelyn segurou sua mão.
— Então deixe correr.
O mundo, porém, não esquecera deles. Em postos comerciais, homens cuspiam quando passavam. Soldados olhavam tempo demais para Evelyn. Mulheres cochichavam que ela enlouquecera. Mas ali, na cabana junto ao rio, eles construíram uma lei própria: ninguém pertencia a ninguém. A porta se fechava para o ódio e se abria para quem precisava de água, comida ou abrigo.
O passado voltou no início do inverno.
Evelyn retornava do povoado quando viu um sinal combinado: uma pedra marcada com carvão numa árvore. Estranho armado.
Ela não foi direto para casa. Subiu a crista e observou. Um homem magro, abatido, esperava perto da cabana.
Silas.
Ele parecia consumido por dentro. As roupas pendiam no corpo, mas a mão ainda pairava perto da arma. Não fugira para sempre. Voltava atrás do livro, da vingança, da ilusão de que podia recuperar poder destruindo quem o desafiara.
Evelyn não entrou em pânico.
Cavalgou até o povoado. Duas horas depois, voltou abertamente.
Silas saiu da sombra com revólver em punho.
— Eu sabia que você voltaria para casa.
— Esta é minha casa — disse Evelyn. — Você é o invasor.
— Me dê o livro.
— Está com o juiz.
— Mentira! Você tirou tudo de mim.
— Você tirou de si mesmo.
Ele ergueu a arma.
— Desça do cavalo.
Evelyn olhou além dele.
— Você não é o único cansado de fugir.
Do leito seco atrás da cabana, Taza apareceu com rifle. Entre as árvores, Elijah Boone surgiu, vivo, marcado, mas firme, segurando uma espingarda. Três vizinhos do povoado também saíram das pedras.
Silas girou, cercado.
— Trouxe um exército? — sussurrou.
— Trouxe meus vizinhos — respondeu Evelyn.
Taza falou:
— Solte a arma. Acabou.
Silas olhou para todos. Depois para Evelyn. Ela não era mais a jovem tremendo na sala de jantar. Era uma mulher empoeirada, queimada de sol, sentada ereta na sela, cercada não por parentes de sangue, mas por pessoas que escolheram estar ali.
A pistola caiu na poeira.
Eles não o mataram. Amarraram suas mãos e o entregaram aos agentes federais. Semanas depois, veio a notícia: Silas Crow fora condenado a vinte anos na prisão territorial de Yuma.
Não era enforcamento. Não era vingança. Era uma gaiola. E, para Evelyn, bastava.
Naquela noite, o vento sacudia a porta nova da cabana. Evelyn remendava uma camisa junto ao fogo. Taza limpava o rifle.
— Por que não deixou que atirassem nele? — perguntou ele. — Teriam feito, se você mandasse.
Evelyn passou a linha pela agulha.
— Porque, se o matássemos, ele moraria aqui para sempre. Viraria fantasma nesta casa. Mandá-lo para Yuma o transforma apenas num homem preso. Podemos esquecê-lo.
Taza a observou.
— Você ficou forte, Evelyn Hart.
— Não dura — disse ela. — Forte. Há diferença.
Ela deixou a costura de lado e se aproximou.
— Acha que conseguimos viver assim? Com o mundo nos odiando?
Taza apoiou os cotovelos nos joelhos.
— Qual é a alternativa? Voltar a ser metade de nós mesmos?
Ela sorriu triste.
— Não.
— O amor não é conto de fada — disse ele. — É decisão diária. Acordar e escolher bondade quando o mundo escolhe crueldade. Escolher verdade quando mentira é mais fácil. Escolher um ao outro mesmo quando custa paz.
Ele ergueu os olhos.
— Eu escolho você, Evelyn. Todos os dias.
Ela tocou o rosto dele. Pensou na sala de jantar dos Vance, no contrato, em Silas dizendo que mulheres aprendiam rédea. Pensou no rio, no medo, na primeira vez em que apoiou a cabeça no ombro daquele homem e descobriu que proximidade não precisava ser rendição.
— Quero sentir você perto, Taza — disse ela.
Dessa vez não havia desespero na voz. Havia confiança.
Ele se levantou, segurou o rosto dela entre as mãos e a beijou devagar, como quem reconhece uma terra prometida não por direito de posse, mas por permissão. Evelyn o abraçou, sentindo o coração dele bater forte contra o seu.
Os anos passaram.
Eles não mudaram o território inteiro. Nenhum amor, por mais feroz, desfaz sozinho a fome dos poderosos ou o veneno dos preconceitos. Mas mudaram o pedaço de mundo que podiam tocar.
A cabana cresceu. Virou casa de pedra, depois casa de passagem. Viajantes honestos procuravam Taza como guia. Famílias sem voz procuravam Evelyn para ler cartas, escrever petições, entender contratos antes de serem enganadas. Mara aparecia às vezes, sempre reclamando de alguma coisa, sempre ficando para comer. Elijah levava café quando passava e ria dizendo que aquela casa era teimosa demais para cair.
Ao amanhecer, muitos anos depois, Evelyn e Taza estavam no alto da crista, olhando o vale. O cabelo dele já tinha fios prateados. O rosto dela guardava linhas abertas pelo sol e pela sobrevivência. A terra continuava dura. O mundo continuava desconfiado. Mas o rio brilhava abaixo como uma fita de prata, e a casa deles soltava fumaça tranquila pela chaminé.
Evelyn encostou o ombro no dele.
— Às vezes penso naquela noite em Red Mesa — disse ela. — Penso que eu estava fugindo de uma prisão e não sabia que corria para uma vida inteira.
Taza olhou o horizonte.
— Eu também penso no rio.
— No medo?
— Na mão que puxei da água.
Ela sorriu.
— E eu penso no homem que não me pediu nada em troca.
O sol subiu devagar, dourando as pedras, os álamos, o telhado da casa que haviam construído contra todas as previsões. Eles permaneceram lado a lado, não como lenda, não como escândalo, não como história que outros pudessem usar.
Apenas como duas pessoas que sobreviveram ao ódio sem permitir que ele decidisse quem seriam.
E, enquanto o vento passava pelo vale, Evelyn segurou a mão de Taza e apertou de leve.
Perto.
Livre.
Finalmente em casa.