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O Mistério Horripilante e Não Resolvido do Duende de Saragoça

O Mistério Horripilante e Não Resolvido do Duende de Saragoça

O duende de Saragoça: a voz que saiu da parede

Naquela manhã, antes mesmo que o sol atravessasse as cortinas encardidas do apartamento da família Palazón, Rosa já sabia que algo terrível estava prestes a acontecer.

Não era superstição. Era instinto de mãe.

Havia três dias que o marido, Tomás, evitava olhar para ela durante o café. Três dias que a filha mais velha, Elena, trancava o quarto por dentro e chorava baixo, como se tivesse medo de que as paredes aprendessem seus segredos. Três dias que a empregada, Pascuala, deixava pratos caírem na cozinha e jurava que não era por descuido, mas porque alguém respirava perto demais de sua nuca.

O prédio inteiro cochichava.

No primeiro andar, dona Mercedes dizia que aquilo era castigo. No segundo, o velho Anselmo garantia que a família Palazón escondia alguma vergonha. No térreo, no café de portas amarelas, os homens bebiam vinho barato e repetiam que mulher jovem demais dentro de casa alheia sempre acabava trazendo desgraça.

Rosa ouvia tudo.

E engolia.

Engolia como havia engolido a humilhação de descobrir uma carta escondida no bolso do casaco do marido. Como havia engolido o olhar estranho que Tomás lançava para Pascuala quando achava que ninguém percebia. Como havia engolido o silêncio de Elena, que uma semana antes perguntara, tremendo:

— Mãe… uma casa pode guardar o que a gente tenta esquecer?

Rosa não respondeu. Porque também tinha medo da resposta.

Naquela manhã, porém, o medo virou outra coisa.

Virou escândalo.

Pascuala estava sozinha na cozinha quando gritou. Não foi um grito comum, desses que saem quando alguém queima a mão ou vê um rato. Foi um grito que atravessou o apartamento como faca. Rosa correu primeiro. Tomás veio atrás, irritado, ainda ajustando os suspensórios. Elena apareceu no corredor, branca como papel.

A jovem empregada estava encostada na parede, apontando para o velho fogão a lenha. Os olhos arregalados, os lábios sem cor.

— Tem alguém ali dentro — ela sussurrou.

Tomás soltou uma risada seca.

— Não comece com teatro, menina.

Mas então a cozinha respondeu.

De dentro do fogão, ou da chaminé, ou de algum lugar impossível entre o metal e a parede, uma voz gemeu:

— Luz… eu quero luz…

Rosa sentiu as pernas perderem força.

Elena levou as mãos à boca.

Tomás ficou imóvel.

E Pascuala, chorando, repetiu:

— Eu disse… eu disse que a casa sabia.

Por alguns segundos, ninguém respirou.

Então a voz riu.

Uma risada fina, histérica, cruel. Uma risada que parecia conhecer todos eles. Que parecia ter passado anos escondida atrás dos tijolos, ouvindo cada briga, cada segredo, cada mentira dita à mesa.

E quando Tomás, finalmente, reuniu coragem para se aproximar do fogão, a voz parou de rir e falou com uma clareza arrepiante:

— Não encoste em mim, Tomás Palazón. Você sabe o que fez.

Foi nesse instante que Rosa entendeu: aquilo não era apenas um mistério. Era uma sentença.

O prédio da rua Gascón número dois, em Saragoça, nunca fora bonito. Tinha corredores estreitos, paredes úmidas, escadas que reclamavam sob os passos e janelas que davam para uma rua sempre cheia de poeira, vozes e presságios. Ainda assim, para quem morava ali, era um lar. Um lugar comum, modesto, cheio de pequenos dramas domésticos, de panelas batendo, crianças correndo, casais discutindo e vizinhos ouvindo mais do que deveriam.

Mas, em 1934, a Espanha inteira parecia ter se tornado uma casa prestes a rachar.

Nas praças, homens gritavam sobre política. Nos cafés, jornais eram lidos como se fossem anúncios de guerra. Famílias dividiam-se por ideias, amizades acabavam por frases ditas em voz alta, e havia no ar uma tensão invisível, um pressentimento de que algo maior e mais sombrio estava se aproximando.

Talvez por isso, quando começaram as risadas no prédio, ninguém conseguiu tratá-las como uma simples brincadeira.

Na noite anterior ao grito de Pascuala, uma gargalhada havia ecoado pelas escadas. Primeiro baixa. Depois alta. Depois tão longa e descontrolada que dona Mercedes saiu do apartamento com um terço na mão e o cabelo solto, chamando por Nossa Senhora. O senhor Anselmo, que jurava não acreditar em fantasmas, abriu a porta com um atiçador de lareira. O dono do prédio, don Emilio, apareceu no corredor trazendo pela mão o pequeno Arturo, seu filho de olhos curiosos.

— Quem está aí? — gritou don Emilio.

A gargalhada subiu pela escadaria como fumaça.

Vinha de cima? De baixo? De dentro de alguma parede? Ninguém soube dizer.

Os moradores caminharam pelos andares, bateram em portas, olharam no sótão e no pátio. Nada. Ninguém. Apenas a risada, que de repente cessou, deixando atrás de si um silêncio tão pesado que todos preferiram voltar para seus apartamentos e fingir que a noite terminara normalmente.

Mas o normal já havia abandonado aquele prédio.

Na manhã seguinte, a voz falou pela primeira vez na cozinha dos Palazón.

E, a partir daí, a família perdeu o direito ao silêncio.

Tomás Palazón era um homem de aparência respeitável. Usava bigode bem cortado, camisa sempre limpa e sapatos engraxados mesmo quando não tinha dinheiro suficiente para pagar todas as contas. Trabalhara por anos como funcionário administrativo, desses que carimbam papéis, obedecem superiores e sonham com promoções que nunca chegam.

Em casa, exigia ordem.

O café deveria estar pronto às sete. A mesa, limpa. As crianças, caladas. A esposa, discreta. A empregada, invisível.

Rosa, sua mulher, aprendera a sobreviver dentro dessa ordem. Casara-se jovem, acreditando que estabilidade era o mesmo que felicidade. Com o tempo, descobriu que havia casas onde ninguém levantava a voz, mas todos se feriam mesmo assim.

Elena, a filha mais velha, tinha dezessete anos e uma beleza triste. Era inteligente, observadora, inquieta demais para uma moça de sua época. O irmão menor, Martín, tinha onze e vivia entre a inocência e o medo, percebendo mais do que os adultos gostariam.

Pascuala chegara à casa dois anos antes. Tinha mãos rápidas, ombros estreitos e uma timidez que fazia as pessoas subestimarem sua inteligência. Viera de uma aldeia pobre, sem família próxima, e aceitara trabalhar em Saragoça porque lhe prometeram cama, comida e algum salário.

Desde o começo, Rosa sentiu pena dela. Depois, sentiu cuidado. Mais tarde, sentiu ciúme. E, por fim, culpa por sentir ciúme de uma jovem que parecia mais assustada do que culpada.

Porque Tomás olhava para Pascuala.

Não de modo escandaloso, não de modo que pudesse ser acusado com facilidade. Mas olhava. Às vezes demorava demais. Às vezes falava com ela num tom mais macio do que usava com a própria esposa. Às vezes, quando Pascuala servia a mesa, Elena observava o pai com uma expressão dura, como se quisesse cuspir uma verdade no prato dele.

Foi por isso que, quando a voz do fogão chamou Tomás pelo nome, a cozinha inteira pareceu virar tribunal.

— Quem está aí? — perguntou ele, tentando manter a autoridade.

A resposta veio num sopro zombeteiro:

— Você sabe.

Rosa segurou a borda da mesa.

— Tomás… isso é alguém brincando?

Ele virou-se para ela, irritado.

— Claro que é alguém brincando! O que mais poderia ser?

Pascuala tremia.

— Senhora, eu juro que não fui eu. Eu estava sozinha. Eu ouvi antes. Ela disse que eu machucava…

— Ela? — perguntou Elena.

A voz riu de novo, mas agora mais grave, como se tivesse mudado de garganta.

— Eu não sou ela.

Martín começou a chorar no corredor.

Rosa correu até ele, abraçou-o contra o peito e sentiu o menino gelado.

— Mamãe, tem alguém preso na parede?

Rosa não soube responder.

Os Palazón fizeram o que qualquer família faria antes de aceitar o impossível: procuraram uma explicação pequena o bastante para caber no mundo real.

Tomás pegou uma lanterna e examinou o fogão. Bateu no metal, abriu a portinhola, enfiou a cabeça o máximo que pôde na abertura escura. Tossiu com fuligem, praguejou, saiu com o rosto sujo.

— Não há nada.

Chamaram Anselmo, que conhecia chaminés. Ele subiu ao telhado com uma corda, examinou as saídas de ar, gritou para baixo, pediu que acendessem e apagassem o fogo. Nada. Nenhum corpo, nenhum menino escondido, nenhum bêbado entalado, nenhum mecanismo evidente.

— Alguém está falando por outro apartamento — concluiu Tomás. — Deve haver alguma passagem de som.

A hipótese trouxe alívio imediato, porque uma brincadeira cruel ainda era melhor que uma voz sem dono.

Mas o alívio durou pouco.

À tarde, os vizinhos começaram a aparecer. Primeiro dona Mercedes, benzendo-se. Depois don Emilio, o proprietário. Depois uma costureira do andar de cima, dois homens do café, uma viúva que dizia ter ouvido a risada dentro do travesseiro. Todos queriam ver. Todos queriam escutar.

Rosa odiou aquilo.

Sua cozinha virou palco. Seu fogão virou atração. Sua família virou boato.

E a voz parecia gostar.

— Quem está aí? — perguntou dona Mercedes, segurando o terço.

— Quem pergunta? — respondeu a voz.

A mulher quase caiu.

— Santa Mãe de Deus…

— Ela não está aqui — disse a voz.

Alguns riram de nervoso. Outros fizeram o sinal da cruz.

Don Emilio aproximou-se, incrédulo.

— Isso é uma fraude. Quem está fazendo isso?

— O dono da casa quer mandar na casa — disse a voz. — Mas eu moro antes dele.

O rosto de don Emilio ficou vermelho.

— Insolente.

A voz gargalhou.

— Insolente é quem cobra aluguel de parede rachada.

Aquela frase espalhou um riso involuntário pela cozinha. Até Elena sorriu por um instante. Mas Rosa não sorriu. Ela percebeu algo terrível: a voz não apenas falava. Ela ouvia. Observava. Sabia.

Nos dias seguintes, o fenômeno ganhou rotina.

Às vezes, começava com arranhões. Um som seco atrás da parede da cozinha, como unhas passando por dentro dos tijolos. Depois vinham batidas no encanamento. Depois gemidos. Por fim, palavras.

— Pascuala…

A jovem congelava.

— Pascuala… venha aqui…

Rosa a encontrava parada na porta, incapaz de entrar.

— Não ouça — dizia, embora ela mesma estivesse ouvindo.

— Ele sabe meu nome, senhora.

— Todos no prédio sabem seu nome.

— Mas ele sabe quando estou sozinha.

Essa era a parte que ninguém conseguia explicar.

Quando Pascuala entrava na cozinha sem fazer ruído, a voz a chamava. Quando Elena apagava a luz, a voz exigia claridade. Quando Tomás murmurava insultos em voz baixa, a voz respondia com insultos piores. Quando Martín se escondia atrás da mesa, a voz dizia:

— Menino, seus pés aparecem.

Não parecia eco. Não parecia simples truque. Parecia presença.

A família começou a se desfazer por dentro.

Tomás ficava furioso com facilidade, como se a voz ameaçasse não apenas sua paz, mas sua autoridade. Passava horas interrogando vizinhos, acusando empregados do café, ameaçando chamar a polícia. Ao mesmo tempo, evitava ficar sozinho na cozinha.

Rosa dormia pouco. Acordava no meio da noite pensando ouvir risadas atrás da cabeceira. Começou a observar o marido com uma suspeita nova. Não porque achasse que ele estivesse produzindo a voz, mas porque a voz parecia rodeá-lo com prazer.

Elena, por sua vez, mudou. Deixou de chorar escondida. Começou a escutar.

Uma noite, quando todos deveriam estar dormindo, Rosa encontrou a filha sentada no chão da cozinha, diante do fogão frio.

— Elena! Ficou louca?

A moça não se assustou.

— Ele fala mais baixo quando a casa dorme.

— Levante-se agora.

— Mãe, ele disse uma coisa.

Rosa sentiu o coração apertar.

— Que coisa?

Elena olhou para ela com olhos de quem carregava uma decisão.

— Disse que há verdades que não queimam no fogo.

Rosa agarrou o braço da filha.

— Você não vai transformar essa loucura em religião.

— E se não for loucura?

— É alguém cruel. Nada mais.

— Então por que ele falou o nome de papai daquele jeito?

Rosa soltou o braço dela.

O silêncio entre as duas foi mais assustador que qualquer voz.

Na manhã seguinte, Tomás anunciou que chamaria a polícia.

Não por coragem. Por desespero.

A história já escapara do prédio. Crianças na rua gritavam “duende” quando passavam pela porta. Homens paravam no café perguntando se era verdade que um espírito morava no fogão dos Palazón. Mulheres vinham pedir detalhes como se fossem comprar verduras. O nome de Pascuala começou a circular com uma crueldade específica. Diziam que ela era médium. Diziam que era bruxa. Diziam que estava grávida de um segredo. Diziam que Tomás sabia mais do que contava.

Rosa percebeu que, se não surgisse uma explicação oficial, a cidade inventaria uma. E a invenção quase sempre seria pior.

Os primeiros policiais chegaram numa tarde fria, com botas pesadas e expressões de tédio. O mais velho, sargento Lázaro, entrou na cozinha como quem entra num teatro ruim.

— Então é aqui que mora o fantasminha?

A voz respondeu imediatamente:

— Boa tarde, Lázaro.

O homem parou.

O policial mais jovem, ao seu lado, empalideceu.

— O senhor conhece alguém no prédio? — perguntou Tomás, rápido.

— Não — disse o sargento.

— Talvez tenham falado seu nome na escada — insistiu Tomás.

Mas ninguém havia falado.

O sargento aproximou-se do fogão, tentando recuperar a pose.

— Quem está escondido aí?

Silêncio.

— Responda.

Uma respiração rouca saiu da chaminé.

— Apague a luz.

O policial ergueu as sobrancelhas. Foi até o interruptor e apagou.

A cozinha mergulhou em penumbra.

— Acenda — exigiu a voz, agora áspera. — Luz. Quero luz.

O sargento acendeu novamente.

A voz riu.

— Covarde.

O jovem policial fez o sinal da cruz antes de lembrar que estava de uniforme.

O interrogatório improvisado durou quase uma hora. Os policiais perguntaram se a voz queria dinheiro. Ela disse que não. Perguntaram se queria comida. Riu. Perguntaram se era homem.

— Eu não sou homem — respondeu.

A frase caiu na cozinha como um prato quebrado.

Dona Mercedes, que espiava pela porta, começou a rezar em voz alta. Tomás mandou que ela saísse. Rosa segurava Martín no colo, embora o menino já fosse grande demais para isso. Elena observava tudo com um brilho febril.

O sargento, apesar de abalado, decidiu não admitir medo.

— Há uma passagem na chaminé. Ou alguém escondido no prédio. Vamos encontrar.

E assim começou a invasão.

Nas semanas seguintes, o prédio deixou de ser lar e virou organismo aberto sobre uma mesa de cirurgia. Engenheiros, pedreiros, arquitetos, curiosos autorizados e autoridades sem paciência passaram a entrar e sair. Mediram paredes, bateram nos tijolos, examinaram o porão, subiram ao telhado, olharam atrás de armários, desmontaram pedaços da chaminé. O café do térreo fechava mais cedo porque os clientes queriam subir. Don Emilio gritava com todos, mas também parecia orgulhoso de possuir o prédio mais comentado de Saragoça.

O fogão, no centro de tudo, permanecia como uma boca escura.

A voz, quando queria, colaborava.

— Essa parede é oca? — perguntou um engenheiro.

— Sua cabeça é mais — respondeu a voz.

Os operários riram, depois calaram-se com medo.

Um pedreiro chamado Ramiro aproximou-se com fita métrica para medir a abertura.

— Não precisa — disse a voz. — Setenta e cinco centímetros.

Ramiro hesitou. Mediu mesmo assim.

Setenta e cinco.

O homem largou a fita, pegou o casaco e saiu sem dizer palavra. Nunca mais voltou para buscar as ferramentas.

A notícia desse episódio incendiou a cidade.

Os jornais começaram a publicar notas diárias. “A voz misteriosa de Saragoça.” “O fantasma educado.” “O duende que discute com a polícia.” “Família vive prisioneira de fenômeno inexplicável.” Cada manchete trazia mais gente. À noite, a rua ficava cheia. Havia vendedores ambulantes, estudantes, bêbados, senhoras devotas, jornalistas, crianças subindo em muros, homens apostando se a voz falaria antes da meia-noite.

O sofrimento dos Palazón virou espetáculo.

Rosa tentou impedir que estranhos entrassem, mas Tomás dizia que era melhor deixar autoridades ouvirem, para que tudo acabasse logo. Elena discordava. Dizia que quanto mais gente vinha, mais a voz se alimentava. Pascuala não opinava. Trabalhava com olhos baixos, cada vez mais magra.

Certa noite, depois que um grupo de repórteres saiu, Rosa encontrou a empregada lavando a mesma xícara havia vários minutos.

— Vai quebrar isso se continuar esfregando.

Pascuala parou.

— Desculpe, senhora.

— Você precisa dormir.

— Não consigo.

Rosa aproximou-se.

— Pascuala… há algo que você queira me contar?

A jovem levantou os olhos. Por um instante, Rosa viu ali uma mistura de medo e ofensa.

— A senhora acha que sou eu?

— Eu não disse isso.

— Todos acham.

— Eu perguntei se há algo que queira contar.

Pascuala respirou fundo.

— Há coisas que uma empregada vê e finge não ver. Há coisas que escuta e engole. Mas essa voz… essa voz não é minha.

Rosa ficou imóvel.

— Que coisas você viu?

Pascuala voltou a olhar para a xícara.

— A senhora sabe.

Rosa sentiu calor no rosto. Quis exigir resposta, mas a cozinha esfriou de repente.

Do fogão veio um sussurro:

— Ela sabe.

As duas mulheres se viraram.

A voz continuou:

— Todas sabem. Só os homens pensam que segredo é parede grossa.

Rosa deu um passo para trás.

— Cale-se.

A voz riu, baixa.

— Mande nele, não em mim.

Pascuala deixou a xícara cair. Desta vez, quebrou.

A partir daquela noite, Rosa deixou de temer apenas a voz. Passou a temer o que a voz poderia revelar.

Porque toda família tem duas casas. A que mostra aos vizinhos e a que existe por trás das portas. A dos Palazón estava cheia de rachaduras.

Tomás devia dinheiro. Elena havia descoberto cartas de cobrança escondidas dentro de um livro religioso. Rosa guardava a carta do casaco do marido sem coragem de confrontá-lo. Pascuala sabia de olhares, passos e silêncios. Martín fingia não entender as brigas, mas acordava chorando. E havia ainda um segredo antigo, anterior à empregada, anterior à voz: Rosa perdera um bebê anos antes, e Tomás, bêbado de frustração, dissera que a culpa era dela. Nunca pediu perdão. Nunca precisou. A frase ficou morando na casa como um cadáver atrás da parede.

Talvez por isso, quando a voz chorava de madrugada, Rosa não conseguia odiá-la completamente.

Às vezes, parecia cruel. Às vezes, parecia presa. Às vezes, parecia uma criança. Às vezes, um velho. Às vezes, algo que imitava todos eles.

Numa madrugada de chuva, Rosa ouviu:

— Maria…

A voz chamou o nome várias vezes.

— Maria… venha…

Rosa levantou-se sem acender a lamparina. Tomás dormia, ou fingia. Ela caminhou até a cozinha. A casa estava fria. A rua, silenciosa. Do fogão apagado vinha um soluço.

— Quem é Maria? — perguntou Rosa.

A voz respirou.

— A que prometeu voltar.

— Voltar de onde?

— Da luz.

Rosa segurou o xale contra o peito.

— Você é uma alma?

Silêncio.

— É uma pessoa?

Silêncio.

— É um demônio?

A voz riu, mas sem força.

— Vocês sempre querem nomes. Nome é coleira.

Rosa sentiu lágrimas nos olhos, sem saber por quê.

— O que você quer de nós?

A resposta demorou tanto que ela pensou que não viria.

Então a voz sussurrou:

— Que escutem.

No dia seguinte, Rosa não contou a ninguém. Nem a Elena. Principalmente não a Tomás.

Mas sua relação com o fenômeno mudou. Ela continuava apavorada, sim. Continuava querendo que acabasse. Porém, começou a perceber que havia algo terrivelmente humano naquela presença. Um desejo desesperado de ser ouvido, mesmo que para isso precisasse assustar uma cidade inteira.

Essa compaixão, no entanto, não salvou ninguém.

A pressão pública cresceu. O governador local, incomodado com multidões bloqueando a rua, exigiu uma solução. Soldados foram posicionados para controlar curiosos. A polícia passou a limitar acesso ao prédio. Jornalistas reclamavam, inventavam, exageravam. Pessoas tentavam entrar fingindo ser investigadores. Alguns jovens subiam em telhados com lençóis, gemendo como fantasmas, até serem presos entre vaias e risos.

Saragoça transformara o medo em carnaval.

E no centro da festa havia uma jovem empregada que começava a ser apontada como culpada.

O primeiro médico que veio examiná-la fez perguntas absurdas. Se ela tinha sonhos estranhos. Se ouvia vozes desde criança. Se desejava chamar atenção. Se odiava a família. Se tinha inveja de Elena. Se algum homem a perturbava. Pascuala respondeu com voz baixa, cada pergunta tornando-a menor.

Depois veio o psiquiatra.

Chamava-se doutor Joaquín Riera, homem de barba curta, olhar frio e reputação impecável. Entrou no apartamento como se já conhecesse o final da história. Conversou com Tomás, Rosa, Elena, don Emilio, policiais, vizinhos. Por fim, pediu para ficar a sós com Pascuala.

Rosa não gostou.

— Ela é minha empregada. Posso acompanhar.

— Justamente por isso, senhora. Ela talvez fale melhor sem a presença da patroa.

A palavra “patroa” soou como acusação.

Pascuala olhou para Rosa, quase suplicante. Rosa deveria ter insistido. Deveria ter ficado. Deveria ter trancado a porta e mandado todos embora. Mas havia tantas autoridades, tantos homens seguros de si, tantos olhos julgando sua casa, que ela recuou.

A entrevista durou mais de uma hora.

Quando Pascuala saiu, parecia febril.

— O que ele perguntou? — quis saber Rosa.

— Se eu sabia fazer vozes.

— E você sabe?

A jovem quase sorriu de desespero.

— Senhora, eu mal sei falar quando me acusam.

O relatório do doutor Riera começou a circular antes mesmo de ser oficialmente anunciado. A explicação era elegante o bastante para parecer científica e cruel o bastante para satisfazer a cidade: Pascuala sofreria de algum tipo de perturbação histérica associada a ventriloquismo inconsciente. Produziria a voz sem saber. Projetaria sons pela garganta, enganando os presentes e até a si mesma. O fogão, a chaminé e as paredes funcionariam como ressonadores. O medo coletivo completaria a ilusão.

Muita gente aceitou com alívio.

Era melhor culpar uma criada pobre do que admitir que policiais, engenheiros, soldados e famílias inteiras haviam sido enganados por algo sem explicação.

Mas dentro do prédio, nem todos acreditaram.

— Ela estava no mercado quando a voz falou comigo — disse dona Mercedes.

— Pode ter sido outra pessoa — respondeu Anselmo, embora sem convicção.

— E quando contava quantos havia na sala? — perguntou Elena.

Tomás bateu na mesa.

— Chega! Se os médicos explicaram, está explicado.

Rosa olhou para ele.

— Desde quando você confia tanto em médicos?

— Desde que preciso salvar o nome da minha família.

A frase expôs tudo.

Não era a paz que Tomás queria. Era reputação.

Pascuala ouviu da porta. Não chorou. Apenas abaixou a cabeça, como se já esperasse ser sacrificada.

A voz, naquela noite, voltou mais violenta.

Os moradores haviam sido temporariamente retirados enquanto uma nova inspeção era feita. Soldados cercavam o prédio. As entradas foram vigiadas. A chaminé, examinada. O telhado, isolado. Por quase dois dias, silêncio.

Então, quando alguns policiais estavam na cozinha dos Palazón, convencidos de que o fenômeno acabara, o sargento Lázaro aproximou-se do fogão e gritou:

— Está aí ainda?

A resposta veio como uma gargalhada longa, baixa, acumulada.

Depois, insultos.

A voz xingou os policiais pelo nome. Chamou-os de cegos, burros, covardes. Imitou a tosse de um deles. Riu da barriga de outro. Fez comentários sobre botas sujas, sobre medo, sobre o suor na testa do sargento.

E então, subitamente, mudou de tom.

— Palazón… eu vou acabar com vocês.

Rosa, que estava no corredor, sentiu o sangue desaparecer do corpo.

— Todos vocês — disse a voz.

Foi a primeira vez que o fenômeno pareceu realmente perigoso.

Não por poder cumprir a ameaça, mas por saber onde ferir. A família já estava cercada pela vergonha, pela suspeita, pelo olhar público. Uma ameaça dessas bastava para que vizinhos começassem a evitá-los como se carregassem doença.

Depois desse episódio, a polícia permaneceu por mais quarenta e oito horas. Nada aconteceu. O silêncio voltou. O governo queria encerrar o caso. A imprensa começava a se cansar, embora ainda explorasse cada detalhe. Os moradores foram autorizados a retomar suas vidas.

Na primeira noite de retorno, vários vizinhos se reuniram na cozinha dos Palazón. Ninguém admitia, mas todos queriam testemunhar o fim. Tomás declarou, com voz oficial:

— Acabou. Era uma perturbação provocada por sugestão, histeria e truques involuntários. Não há mais nada a discutir.

Pascuala estava num canto, pálida. Rosa viu que suas mãos tremiam.

Dona Mercedes murmurou:

— E se voltar?

Tomás respondeu:

— Não voltará.

O fogão estalou.

Todos viraram.

De dentro dele, a voz berrou:

— Covardes!

Elena soltou um grito.

— Covardes! — repetiu a voz. — Aqui estou eu!

A cozinha virou caos. Dona Mercedes caiu de joelhos. Anselmo correu para a porta. Don Emilio praguejou. Martín chorou no quarto. Tomás ficou roxo de raiva.

Pascuala, porém, permaneceu imóvel.

A voz riu dela.

— Estão dizendo que é você, Pascuala.

A jovem fechou os olhos.

— Mas você sabe que não é.

Pela primeira vez, ela respondeu:

— Então diga quem é.

O silêncio veio tão pesado que parecia matéria.

Depois, a voz sussurrou:

— Eu sou a casa quando a casa não aguenta mais.

Ninguém soube o que fazer com aquela frase.

No dia seguinte, o governador anunciou publicamente a conclusão: o caso era resultado de fenômeno psicológico ligado a Pascuala. A cidade, faminta por uma solução, devorou a explicação. Os jornais trocaram o espanto pela ironia. A empregada virou personagem ridícula, perigosa ou patética, dependendo da pena de quem escrevia.

Tomás demitiu Pascuala antes do fim da semana.

Rosa tentou impedi-lo.

— Ela não tem para onde ir.

— E eu tenho uma família para proteger.

— Proteger de quem? Dela ou do que falam?

— É a mesma coisa agora.

Pascuala ouviu a decisão sem discutir. Recebeu suas poucas roupas dentro de uma mala pobre. Elena tentou lhe entregar um lenço bordado.

— Fique com ele — disse Pascuala. — Nesta casa, até pano aprende a guardar lágrima.

Rosa acompanhou-a até a escada.

— Eu sinto muito.

Pascuala olhou para a mulher com uma calma estranha.

— A senhora não sente ainda. Vai sentir quando ficar sozinha com as paredes.

Rosa segurou o corrimão.

— Você acredita que a voz vai continuar?

A jovem demorou a responder.

— Não sei. Mas sei que não começou comigo.

— Então de onde vinha?

Pascuala olhou para a parede descascada do corredor.

— De onde vêm as coisas que ninguém quer ouvir.

Partiu sem se despedir de Tomás.

A cidade acreditou que, com a saída dela, o duende desapareceria. E, por algum tempo, pareceu verdade. O fogão ficou mudo. A rua esvaziou. Os soldados foram embora. Os jornais encontraram outras crises, outros escândalos, outras tragédias anunciadas. O café do térreo voltou a servir vinho e discutir política. Os vizinhos reaprenderam a fingir normalidade.

Mas uma casa marcada nunca volta a ser a mesma.

No apartamento dos Palazón, o silêncio era quase pior que a voz.

Tomás tentava agir como vencedor. Repetia a amigos que tudo não passara de caso nervoso de uma empregada sugestionável. Dizia que a ciência havia triunfado sobre superstição. Dizia que sua família fora vítima. Mas seus olhos continuavam fugindo do fogão.

Rosa parou de cozinhar ali quando estava sozinha. Preferia preparar refeições frias ou chamar Elena para acompanhá-la. Martín não entrava mais na cozinha à noite. Elena escrevia em cadernos que escondia sob o colchão.

Certa tarde, Rosa encontrou a filha fazendo as malas.

— O que pensa que está fazendo?

— Vou para a casa da tia Inés.

— Sem meu consentimento?

— Com ou sem ele.

Rosa fechou a porta do quarto.

— Elena, já temos vergonha demais sobre nós.

A moça virou-se, feroz.

— Vergonha não é o que falam da gente. Vergonha é o que a gente aceita calada.

Rosa levou a mão ao peito.

— Está falando do seu pai?

— Estou falando desta casa. Estou falando da carta no casaco dele. Estou falando do jeito que Pascuala tremia quando ele chegava perto. Estou falando do bebê que a senhora perdeu e da frase que ele disse, porque eu ouvi. Eu era criança, mas ouvi. Todo mundo ouviu tudo nesta casa, mãe. Só ninguém teve coragem de falar. Até a parede falou antes de nós.

Rosa sentou-se na cama, sem ar.

A filha ajoelhou-se diante dela.

— Venha comigo.

— Não posso.

— Pode.

— Martín…

— Levamos Martín.

Rosa olhou para as mãos. Mãos que haviam servido, limpado, segurado, escondido. Mãos de uma mulher que passara anos chamando sobrevivência de casamento.

— Seu pai nunca nos deixaria ir.

Elena respondeu com uma maturidade triste:

— Ele já nos deixou há muito tempo.

Naquela noite, Rosa confrontou Tomás.

Não foi uma cena grandiosa. Não houve pratos quebrados, nem gritos que acordassem o prédio. Talvez porque a casa já tivesse gritado por todos. Tomás estava na sala, lendo o jornal. Rosa colocou a carta sobre a mesa.

Ele olhou. Depois olhou para ela.

— Onde encontrou isso?

— No seu casaco.

— Mexendo nas minhas coisas?

Rosa sorriu sem alegria.

— Era isso que eu esperava. Não vergonha. Não explicação. Apenas ofensa por eu ter descoberto.

Tomás dobrou o jornal devagar.

— Cuidado com o que diz.

— Passei anos tendo cuidado.

— Rosa…

— Não. Hoje você escuta.

Ele levantou-se.

— Está histérica como a criada.

A palavra acendeu nela uma força desconhecida.

— Claro. Quando uma mulher fala, é histeria. Quando uma parede fala, chamam engenheiro, polícia, psiquiatra e exército. Mas quando uma esposa fala, mandam que ela se cale.

Tomás ficou em silêncio.

— Não sei o que havia naquele fogão — continuou Rosa. — Não sei se era truque, espírito, loucura ou pecado. Mas sei que, enquanto todos procuravam a voz dentro das paredes, ninguém olhava para o que esta família escondia fora delas.

— Você vai destruir nossa casa por causa de boatos?

— Não. A casa já estava destruída.

Na cozinha, algo estalou.

Os dois ouviram.

Tomás empalideceu.

Rosa não se moveu.

Do fundo do apartamento veio uma risada muito baixa. Talvez madeira contra metal. Talvez vento. Talvez memória.

Tomás sussurrou:

— Não.

Rosa olhou para ele com pena.

— Agora você também escuta.

Na manhã seguinte, Rosa levou Elena e Martín para a casa da irmã por alguns dias. Oficialmente, seria uma visita. Na prática, era o primeiro passo de uma separação que ninguém naquela época chamaria por esse nome com facilidade.

Tomás ficou.

Sozinho.

Os vizinhos disseram depois que ele passou a beber mais. Que evitava sair. Que vendeu alguns móveis para pagar dívidas. Que, quando alguém mencionava o duende, ele reagia com fúria. Também disseram que, numa noite, foi visto na escadaria falando com a parede.

Mas isso pode ter sido invenção. Em Saragoça, depois do caso, qualquer sombra virava testemunho.

Rosa nunca soube se a voz falou novamente com ele. Tomás nunca contou. Meses depois, deixou o apartamento. A família Palazón desfez-se oficialmente sem anúncio. Rosa permaneceu com os filhos na casa da irmã por um tempo, depois encontrou trabalho costurando. Elena estudou, ensinou crianças, escreveu textos que nunca publicou. Martín cresceu evitando fogões antigos e piadas sobre fantasmas.

Quanto a Pascuala, sua punição foi mais longa.

Mesmo longe de Saragoça, a história a seguia. Pessoas a reconheciam em mercados, estações, igrejas. Perguntavam se ela ainda fazia a voz. Pediam demonstrações. Riam. Alguns tinham medo. Outros queriam tocá-la como se tocassem relíquia amaldiçoada.

No começo, ela negava.

— Não fui eu.

Negava com calma. Depois com irritação. Depois com cansaço.

Mas o mundo raramente perdoa uma mulher pobre escolhida para carregar uma explicação conveniente. Com o tempo, Pascuala parou de responder. Trabalhou em casas menores, sempre por pouco tempo. Mudava-se quando a história chegava antes dela. Evitava amizades. Evitava cozinhas com chaminé. Evitava espelhos, porque neles via a jovem assustada que um dia fora deixada sozinha diante de um fogão que falava.

Anos passaram.

A Espanha mergulhou em dores muito maiores. Guerras, perdas, nomes riscados, famílias partidas, ruas que aprenderam sons piores que risadas misteriosas. O duende de Saragoça virou curiosidade de jornal velho, conversa de idosos, nota em livros sobre mistérios. O prédio foi demolido. No lugar, ergueram outro, moderno, limpo, indiferente. Uma placa lembrava o nome estranho, quase brincalhão, como se a cidade tivesse transformado trauma em decoração.

Mas quem viveu aquilo não esqueceu.

Arturo, o filho pequeno de don Emilio, cresceu com a lembrança da noite em que pediu ao pai para ir dormir e a voz respondeu:

— Não está louco, pequeno.

Ele carregou essa frase pela vida como quem carrega uma pedra no bolso. Não porque provasse algo, mas porque o fizera sentir que havia limites que os adultos atravessavam sem entender. Interrogar o inexplicável parecia brincadeira até que o inexplicável olhava de volta.

Dona Mercedes morreu jurando que aquilo era coisa do outro mundo. Anselmo morreu dizendo que era truque, mas nunca voltou a morar em prédio com chaminé coletiva. O sargento Lázaro, aposentado, recusava entrevistas. Doutor Riera manteve sua explicação até o fim, pois homens de ciência também se apegam às próprias certezas como beatos a relíquias.

Rosa viveu o bastante para ver Elena tornar-se uma mulher livre de um modo que ela mesma nunca fora completamente. A filha escreveu uma vez:

“Não sei se o duende existiu. Sei que minha mãe começou a existir depois dele.”

Rosa guardou essa frase numa caixa junto da carta do casaco de Tomás, não por saudade, mas como prova de que algumas prisões só terminam quando recebem nome.

E Pascuala?

Pascuala desapareceu por décadas.

Até que um repórter, fascinado por histórias antigas, conseguiu encontrá-la. Ela já era uma mulher idosa, vivendo quase isolada, num quarto simples, com poucos móveis e uma janela voltada para um pátio silencioso. O repórter esperava encontrar uma farsante arrependida, uma médium envelhecida ou uma camponesa confusa. Encontrou apenas alguém cansado demais para mentir e ferido demais para explicar.

Perguntou-lhe sobre Saragoça.

Ela fechou os olhos.

Perguntou se fora ela.

Ela não respondeu.

Perguntou se havia aprendido ventriloquismo.

Pascuala soltou uma risada curta, sem alegria.

Por fim, o repórter fez a pergunta que todos haviam feito de diferentes maneiras:

— Então de onde vinha a voz?

A velha abriu os olhos.

Por um instante, pareceu novamente a jovem da cozinha, ouvindo algo que ninguém mais queria ouvir.

E respondeu:

— Da parede.

Nada mais.

O repórter esperou complemento. Não houve. Pascuala virou o rosto para a janela, e a entrevista terminou.

Talvez tenha sido a única resposta honesta possível.

Porque uma parede não é apenas tijolo. É o que separa famílias. É o que esconde choros. É o que devolve ecos. É o que escuta o que ninguém confessa. Naquele prédio de Saragoça, em 1934, talvez alguém tenha feito uma brincadeira cruel. Talvez Pascuala tenha sido vítima de um fenômeno da mente. Talvez um morador invisível tenha usado canos e chaminés para enganar uma cidade inteira. Talvez houvesse mesmo algo ali, algo travesso, preso, faminto por atenção.

Ou talvez a verdade seja ainda mais incômoda: quando uma casa acumula silêncio demais, qualquer rachadura pode começar a falar.

A voz parou. O prédio caiu. Os jornais amarelaram. Os curiosos morreram. Mas a pergunta permaneceu.

Não porque precisasse de fantasma.

Mas porque todos que ouviram aquela história, em algum momento, imaginaram sua própria cozinha à noite. Seu próprio corredor escuro. Sua própria parede guardando frases que nunca deveriam ter sido engolidas.

E então entenderam por que Rosa Palazón, muitos anos depois, já velha, ao ser perguntada se ainda tinha medo do duende, respondeu apenas:

— Do duende, não. Tenho medo é de casa onde ninguém diz a verdade.

Naquela mesma noite, segundo contou Elena em uma carta que jamais enviou, Rosa acordou com sede. Caminhou devagar até a pequena cozinha da casa da filha. Não havia fogão a lenha, nem chaminé antiga, nem parede úmida de Saragoça. Tudo era simples, limpo, quieto.

Ela bebeu água.

Antes de voltar para o quarto, tocou a parede com a ponta dos dedos.

E, pela primeira vez em décadas, não pediu que o silêncio continuasse.

Pediu apenas:

— Se houver algo aí, que fale antes que seja tarde.

A parede não respondeu.

Mas Rosa sorriu mesmo assim.

Porque, naquele silêncio, não havia ameaça.

Havia paz.