Leve-me em seu cavalo e eu lhe darei algo que nenhuma mulher pode lhe dar! — Implorou uma mulher apache!
A primeira mentira que Nalin ouviu naquela noite saiu da boca do próprio tio.
Ele estava de pé no centro da cabana, iluminado pela luz instável do fogo, com o rosto duro como pedra antiga e as mãos manchadas de terra da roda da carroça que consertara durante a tarde. Do lado de fora, o vento varria o vale como se quisesse arrancar as tendas do chão. Dentro, a família inteira permanecia em silêncio, mas era um silêncio pesado, cheio de acusações que ninguém tinha coragem de dizer em voz alta.
— Ninguém vai tocar em Taza — disse o tio Ahote, olhando para Nalin como se aquela promessa bastasse para sustentar o mundo. — Enquanto eu respirar, seu irmão não será levado.
Taza, com apenas doze anos, estava sentado perto da mãe, apertando entre os dedos um pequeno apito de osso que Nalin havia feito para ele quando ainda eram crianças. O menino não chorava. Isso assustava mais do que se chorasse. Seus olhos estavam fixos na porta, como se já soubesse que alguém viria por ela.
A mãe de Nalin havia morrido dois invernos antes, tossindo sangue depois de uma marcha forçada para longe de uma nascente que pertencia à sua gente havia gerações. O pai desaparecera antes disso, levado por soldados que juraram apenas fazer perguntas. Nunca voltou. Desde então, Ahote era a única parede entre Nalin, Taza e o mundo.
Mas naquela noite até as paredes pareciam frágeis.
A segunda mentira veio de uma mulher da própria família, uma prima distante, que surgiu na cabana com o rosto coberto de poeira e os olhos desviando de todos. Chamava-se Sani. Ela trazia notícias do povoado de Black Rock, mas suas mãos tremiam como se carregassem culpa.
— Mercer sabe onde vocês estão — disse ela.
Ahote deu um passo à frente.
— Como?
Sani não respondeu.
Nalin viu antes de todos. Viu a pulseira nova no pulso da prima, um fio de prata fina que nenhuma mulher faminta compraria. Viu a vergonha escondida na curva da boca. Viu o pagamento.
— Você contou — sussurrou Nalin.
Taza levantou os olhos.
Sani começou a chorar, mas aquele choro não lavava nada.
— Eles disseram que só queriam conversar. Disseram que dariam comida, cobertores, remédio. Eu não sabia…
— Sabia — disse Nalin.
Foi nesse instante que ouviram os cavalos.
Não eram muitos. Bastavam.
O som veio primeiro como um tremor debaixo da terra, depois como batidas secas, aproximando-se pelo leito pedregoso. Ahote apagou parte do fogo com o pé, agarrou a espingarda velha que quase nunca funcionava e empurrou Taza para os braços de Nalin.
— Corram para o barranco — ordenou. — Agora.
Taza se agarrou à irmã.
— E você?
Ahote não respondeu. Apenas olhou para Nalin. Naquele olhar havia uma despedida inteira.
A porta foi chutada para dentro.
Homens entraram com chapéus baixos, botas sujas e a segurança cruel de quem vinha protegido por dinheiro e distintivos. O primeiro trazia um sorriso preguiçoso no rosto. Nalin nunca esqueceria aquele sorriso. Mais tarde, saberia o nome dele: Frank Miller, delegado, caçador, animal vestido de homem.
— Estamos procurando um menino — disse Miller. — E talvez uma garota, se ela der trabalho.
Ahote ergueu a arma.
O tiro veio antes que ele pudesse puxar o gatilho.
Nalin não gritou. O mundo ficou mudo. Ela viu o corpo do tio cair de lado, viu Sani cobrir a boca com as mãos, viu Taza ser arrancado de seus braços por um homem grande de barba vermelha. Só então o som voltou, rasgando tudo.
— Nalin! — Taza gritou.
Ela se lançou contra eles, mordendo, arranhando, chutando. Um punho acertou seu rosto. A cabana girou. Quando caiu, viu as botas arrastando o irmão para fora.
Ahote, ainda vivo por alguns segundos impossíveis, agarrou a barra de sua saia.
— Fuja — ele conseguiu dizer. — Encontre água. Encontre alguém que ainda tenha alma.
Nalin correu para a noite levando apenas uma faca quebrada e o nome do irmão queimando na garganta.
Durante dois dias, ela correu.
Correu pelo deserto do Arizona como se o próprio chão quisesse traí-la. O sol lhe abriu rachaduras nos lábios. Os espinhos rasgaram sua saia. O tornozelo direito virou numa pedra solta e inchou até ficar irreconhecível. A sede se tornou uma fera dentro dela, mordendo por dentro. Ainda assim, ela continuou.
Atrás dela vinham homens. Não soldados. Piores. Soldados carregavam ordens. Aqueles carregavam fome.
No terceiro entardecer, quando o céu parecia uma ferida roxa sobre as montanhas Dragoon, Nalin ouviu um cavalo.
Ela se arrastou para trás de um emaranhado de galhos secos e apertou a faca partida contra o peito. Quando o homem apareceu na beira da ravina, montado num castrado de mancha branca, Nalin viu primeiro a arma, depois o rosto.
Era branco. Barba por fazer. Olhos claros, fundos, cansados. Um homem moldado pelo sol e pela culpa.
Ethan Cole desmontou devagar.
Ele trabalhava como cercador para uma fazenda decadente perto do vale do rio San Pedro, mas não pertencia a lugar algum. Vivia sozinho num barraco de madeira a muitos quilômetros da casa principal. Dormia de botas, contava cartuchos antes de apagar a lamparina e acordava ao menor ruído como se ainda estivesse em guerra.
Porque, de certa forma, estava.
Três anos antes, Ethan fora batedor do Exército. Conhecia trilhas, montanhas, passagens, fontes escondidas. Conhecia também a vergonha. Guiara homens uniformizados até aldeias que depois viraram fumaça. Desde então, havia tentado desaparecer no trabalho duro, no silêncio e na poeira.
Quando viu Nalin caída na ravina, com o tornozelo inchado, a roupa rasgada e os olhos de alguém que esperava o pior, ele parou a cinco passos.
— Água — disse ele, retirando o cantil.
Ela recuou como se ele tivesse erguido um chicote.
Os lábios de Nalin estavam brancos. A voz saiu quebrada, mas as palavras eram claras demais, ensaiadas demais, horríveis demais.
— Leve-me no seu cavalo — implorou. — Leve-me, e eu lhe darei algo que nenhuma mulher pode lhe dar.
O silêncio depois disso foi mais brutal que um tiro.
Ethan não se mexeu. Olhou para ela, para a faca quebrada em sua mão, para a vergonha que já queimava no rosto dela antes mesmo de ele responder. Entendeu de imediato. Ela não estava seduzindo. Estava tentando sobreviver com a única moeda que homens como os que a caçavam haviam ensinado que ela possuía.
A garganta dele apertou.
— Não — disse Ethan.
A recusa a atingiu como pancada. Seus olhos se arregalaram, esperando a raiva, o insulto, a violência.
Ethan apenas se agachou, pôs o cantil sobre uma pedra entre os dois e recuou.
— Beba.
Nalin esperou o truque. Não veio.
Então se lançou sobre a água.
Bebeu com desespero, deixando escorrer pelo queixo, pela garganta, pela blusa suja. Ethan tirou uma bandana do bolso, cortou em tiras e se aproximou devagar.
— Seu tornozelo precisa de apoio — disse. — Vai doer.
Ela apertou os dentes quando ele enfaixou a articulação inchada. Cada toque dele era cuidadoso, quase estranho. Nalin não sabia o que fazer com um homem que podia machucá-la e escolhia não machucar.
— Há homens atrás de você? — perguntou Ethan.
Ela assentiu.
— Quantos?
— Três. Talvez mais. Um com distintivo.
A expressão de Ethan endureceu.
— Frank Miller?
O medo nos olhos dela foi resposta suficiente.
Ethan olhou para a linha do cume. A noite se aproximava. Se Miller estava envolvido, aquilo não era uma perseguição comum. Havia dinheiro, mentira e poder por trás.
— Consegue montar?
— Não.
Ele a ergueu nos braços.
Nalin ficou rígida contra ele, tentando ocupar o menor espaço possível, como se pudesse impedir que seu corpo existisse. Ethan fingiu não notar para preservar a dignidade dela. Ajudou-a a subir na sela e montou atrás, mantendo os braços ao redor dela apenas o necessário para segurar as rédeas.
Quando partiram, três silhuetas surgiram na linha do horizonte.
Nalin viu primeiro.
— Esquerda — sussurrou. — Pelo corte nas pedras. Não faz som.
Ethan hesitou por uma fração de segundo. À direita havia caminho aberto. À esquerda, um desfiladeiro estreito que parecia armadilha.
Mas ela conhecia a terra.
Ele virou para a esquerda.
Cavalgaram por uma garganta de rocha, onde os cascos eram engolidos pela pedra e a noite caiu de repente. O frio veio rápido depois do calor, mordendo a pele. Ao longe, coiotes riam como espíritos enlouquecidos.
Só pararam perto da madrugada, num abrigo raso sob um barranco de argila. Ethan desmontou, ajudou Nalin a descer e cobriu o cavalo para abafar ruídos. Depois partiu carne seca ao meio e jogou um pedaço para ela.
— Coma.
Ela comeu como quem se envergonha da própria fome.
Acima deles, vozes passaram pela borda da ravina.
— Ela foi por aqui — disse uma voz rouca.
Nalin parou de respirar.
— Está ferida — disse outro. — Não deve ter ido longe.
— Mercer quer viva, se der — respondeu o primeiro. — Cinquenta dólares do território, talvez mais. E se o garoto continuar mordendo, mando arrancarem os dentes dele.
O mundo de Nalin inclinou.
Taza.
Ethan sentiu a mudança nela. Viu o rosto dela perder a cor.
Os cavaleiros se afastaram.
Quando o silêncio voltou, Nalin chorava sem som. Lágrimas cortavam trilhas limpas na poeira do rosto. Ethan desviou o olhar, não por indiferença, mas para não roubar dela nem aquele pouco de privacidade.
— Taza é seu filho? — perguntou depois de muito tempo.
— Meu irmão — disse ela. — Doze anos.
A palavra “irmão” ficou entre eles como uma sentença.
Na manhã seguinte, a febre começou. O ombro de Nalin, arranhado durante a fuga, estava vermelho e inflamado. O tornozelo latejava. Ethan encontrou uma nascente quase seca, cavou na lama até juntar água marrom, coou com o lenço e a fez beber.
— Precisamos encontrar Taza — murmurou ela, delirante. — Antes que Mercer o venda.
Ethan já ouvira aquele nome.
Silas Mercer era dono de minas, linhas de transporte, juízes e homens armados. Chamava escravidão de contrato. Chamava sequestro de tutela. Chamava assassinato de pacificação.
— Vamos encontrá-lo — disse Ethan.
Nalin olhou para ele, sem saber se podia acreditar.
— Por quê?
Ethan não respondeu de imediato.
À tarde, uma tempestade de monção explodiu sobre as montanhas. Eles se refugiaram numa caverna rasa, onde Ethan acendeu uma pequena fogueira no fundo, para que a fumaça não denunciasse a posição. A chuva despencou lá fora como se o céu tivesse se partido.
Nalin, enrolada no cobertor dele, observava cada movimento.
— Por que você ajuda? — perguntou enfim. — Você é branco. É como eles.
Ethan quebrou um graveto e o colocou no fogo.
— Não sou como eles.
Ela o encarou.
— Você é um homem bom?
A pergunta o atingiu com mais força do que uma acusação.
Ethan viu fumaça de aldeias antigas, ouviu gritos enterrados, sentiu na palma da mão o peso de uma pulseira infantil encontrada depois de um ataque. Fechou os olhos.
— Não — disse. — Não sou um homem bom. Mas não vou entregar você.
A honestidade a confundiu. Uma mentira ela poderia odiar. Aquilo era mais difícil.
Naquela noite, Nalin teve pesadelos. Acordou agarrando o pulso de Ethan com força, os olhos abertos para uma lembrança que não estava na caverna. Ele não se soltou. Ficou imóvel, permitindo que ela usasse sua presença como âncora.
— Você está aqui — murmurou. — Na pedra. Na chuva. Comigo.
Aos poucos, a respiração dela voltou.
Pela primeira vez desde que correra da cabana, Nalin entendeu que não era apenas presa. Não enquanto Ethan estivesse ali.
Nos dias seguintes, sobreviveram ensinando um ao outro.
Ethan mostrou sinais de trilha, gestos silenciosos, formas de cruzar terreno aberto sem virar alvo. Nalin mostrou frutos de cacto que não feriam a língua, o cheiro de couro velho carregado pelo vento, a diferença entre silêncio natural e silêncio de emboscada.
Eles falavam pouco. Mas o silêncio entre eles deixou de ser vazio. Tornou-se um lugar onde a confiança começava a crescer.
No terceiro dia, aproximaram-se de Black Rock, um povoado miserável agarrado a uma estrada de mineração. Ethan precisava de farinha, café, munição. Nalin enrijeceu ao ver fumaça de chaminés, crianças na rua, homens à sombra do saloon.
Para ela, uma cidade era uma gaiola.
— Pode ficar aqui — disse Ethan. — Ou vir comigo.
A escolha, oferecida sem pressão, pareceu-lhe quase absurda.
— Eu vou.
Ele lhe deu uma camisa velha de flanela e um chapéu largo. Ela vestiu as roupas sobre o vestido rasgado, abaixou a cabeça e caminhou ao lado dele.
Na loja, o cheiro de picles, couro e serragem enchia o ar. O lojista sorriu para Ethan até enxergar o rosto de Nalin sob a aba do chapéu. O sorriso morreu.
— Não atendo índios.
Ethan parou.
— Ela está comigo.
— Não me importa se está com o presidente. Tire-a daqui.
Nalin sentiu a humilhação como um golpe surdo, algo antigo e repetido, a lembrança de ser reduzida a menos que gente diante de desconhecidos. Deu um passo para trás.
Ethan pôs as mãos sobre o balcão.
— Quero dez libras de farinha, café e uma caixa de cartuchos. Vou pagar em dinheiro.
O lojista sustentou o olhar dele por pouco tempo. Havia algo nos olhos de Ethan que sugeria que a paciência terminara.
— Pegue logo — resmungou.
Do lado de fora, uma pequena multidão se formara. Um pregador apontou para Nalin como se ela fosse praga.
— Uma maldição entre nós! — gritou. — Os pagãos trazem escuridão!
Ethan levou a mão ao revólver.
Nalin tocou seu braço.
— Não aqui.
A voz dela o segurou melhor que corrente.
Ele respirou fundo, carregou os suprimentos e a ajudou a montar. Ao se afastarem, Ethan viu Frank Miller sentado na varanda do saloon, fumando, o distintivo brilhando no peito. O delegado sorriu.
Não fez nada.
Esse sorriso disse a Ethan que Miller não apenas sabia. Participava.
Naquela noite, acamparam longe da cidade. Nalin ficou encarando o fogo até as lágrimas virem, não de tristeza, mas de raiva contra si mesma.
— Eu disse aquelas palavras — sussurrou. — Quando você me encontrou. Eu me ofereci porque achei que era só isso que eu era.
Ethan pousou a caneca.
— Eu ouvi.
— Eu me odeio por saber dizer aquilo.
Ele olhou para as próprias mãos.
— Eu era batedor do Exército.
Nalin ficou imóvel.
— Eu guiava soldados — continuou Ethan. — Dizia a mim mesmo que estava evitando guerras maiores. Que estava cumprindo ordens. Mas levei homens até aldeias onde crianças dormiam. Vi o que aconteceu. Não impedi.
O fogo estalou.
— Eu fugi. Vim para cá. Tentei virar nada. Mas o sangue não sai.
Nalin deveria odiá-lo. Parte dela odiou. Mas viu o homem à sua frente sem defesa, despido de orgulho, afundado num arrependimento que não pedia perdão.
— Você parou — disse ela.
Ele ergueu os olhos.
— Não apaga o que fiz.
— Não — respondeu. — Mas você parou.
Não era perdão. Era reconhecimento. E, naquela terra, reconhecimento já era muito.
Pouco a pouco, o objetivo se tornou claro.
Taza fora levado por uma rede de Mercer. Crianças e mulheres eram registradas como órfãs, aprendizes, criadas. Papéis assinados por juízes comprados transformavam gente em propriedade. A mina Copper Queen precisava de mãos pequenas para separar minério, corpos pobres para fundição, nomes apagados para que a lei fingisse não ver.
A chave estava nos registros.
Uma curandeira mestiça chamada Maria Luján confirmou tudo quando os encontrou perto de Tubac. Maria morava numa casa de adobe inclinada contra a colina e tratava quem médicos brancos recusavam.
Ela examinou o tornozelo de Nalin, passou uma pasta verde na pele roxa e falou como quem descreve o tempo:
— Mercer financia uma missão ao sul. O padre mantém livros. Se o menino virou mercadoria legal, o nome dele está lá.
— Legal? — Ethan cuspiu a palavra.
— Com selo, assinatura e bênção — respondeu Maria. — É assim que homens ricos roubam sem sujar as mãos.
À noite, Ethan e Nalin foram à missão de San Xavier. As paredes brancas brilhavam sob a lua. Ethan abriu a porta com a faca. O padre Grialva estava acordado diante de uma vela, como se já esperasse pelo pecado.
— Não quero dinheiro — disse Ethan. — Quero o livro.
O padre tremeu.
— Mercer nos dá doações. Alimentamos órfãos.
— E vende outros para pagar a sopa?
A vergonha curvou os ombros do padre. Ele empurrou o livro.
Nalin passou o dedo pelas colunas. Nomes riscados, nomes novos, idades aproximadas, destinos. Então parou.
— Aqui.
Apache macho, cerca de doze anos. Renomeado Thomas. Destinado ao Galpão de Triagem Quatro, Mina Copper Queen.
Taza estava vivo.
Mas no papel já não era Taza.
O plano nasceu na poeira do dia seguinte.
Ethan entraria na cidade mineira como andarilho procurando trabalho. Nalin ficaria escondida nas colinas, observando. Mas ela se recusou.
— Você não conhece o apito que usamos quando éramos pequenos. Se ele não me reconhecer, vai fugir de você. Ou morder.
Ethan quis dizer não. Quis protegê-la. Mas percebeu que proteção, quando virava prisão, era apenas outra forma de roubo.
— Vamos juntos.
A mina era uma ferida aberta na terra. Chaminés cuspiam fumaça amarela. Moinhos esmagavam rocha sem parar. Homens de olhos fundos caminhavam como fantasmas. Guardas com espingardas patrulhavam como carcereiros.
Ethan observou turnos, rotas, guardas bêbados. Ouviu um capataz ruivo falar de uma “carga mista”: lingotes de cobre e aprendizes, incluindo “o menino que morde”.
— Vão transferi-lo para a fundição — disse Ethan ao voltar. — Amanhã pode ser tarde.
Entraram no Galpão Quatro durante a troca de turno, quando o apito da máquina cobriu ruídos. O lugar cheirava a poeira metálica e medo. Nos fundos, havia uma área cercada, vazia.
Nalin tocou uma viga.
Ali, entalhado na madeira, estava o desenho de uma linha de montanha quebrada.
— Taza — sussurrou. — Ele esteve aqui.
Passos soaram do lado de fora.
Dois guardas entraram com lanternas. Ethan derrubou o primeiro contra caixas de minério. A lanterna caiu, o fogo lambeu palha seca. O segundo ergueu a espingarda. Nalin arremessou uma pedra pesada que acertou o rosto dele, desviando o tiro para o telhado.
A luta foi curta e brutal. Um guarda caiu e não se levantou.
O alarme explodiu lá fora.
Eles fugiram para a noite com tiros levantando poeira atrás dos pés. Pela manhã, cartazes já os chamavam de assassinos. Recompensa: mil dólares.
Agora não eram apenas fugitivos. Eram símbolos úteis para o ódio.
Esconderam-se no porão de Maria. Ela desceu com pão de milho, água e notícias ruins.
— O xerife convocou vinte homens. Mercer mandou aviso ao forte. Dizem que Ethan lidera uma revolta Apache.
— Se eu me entregar… — começou Ethan.
Maria riu sem humor.
— O juiz joga pôquer com Mercer. Você será enforcado antes do pôr do sol. Ela desaparecerá.
Nalin, sentada no canto, afiava a faca.
— Então paramos de fugir.
Ethan olhou para ela.
— Como?
— Pegamos a verdade.
Maria contou sobre o livro do xerife, onde pagamentos de Mercer eram registrados. Taxas por “lotes” de trabalhadores. Nomes, datas, valores. Se conseguissem aquele livro, talvez um juiz federal, longe do bolso de Mercer, pudesse agir.
Naquela noite, Nalin entrou pelo teto do gabinete do xerife enquanto Ethan criava distração no estábulo. Encontrou o cofre aberto. Arrogância era a fechadura dos poderosos.
O livro estava lá.
Ela abriu.
Pagamentos. Transporte de seis fêmeas e dois machos. Renomeações. Tutelas. Cifras frias ao lado de vidas arrancadas.
Nalin enfiou o livro na camisa.
Então ouviu o clique de um revólver.
Frank Miller estava sentado no canto, sorrindo.
— Olá, querida.
O tiro dele estourou a moldura da porta quando ela se jogou pela janela lateral. Vidro rasgou seu braço. Ela caiu no beco, levantou mancando e correu.
— Peguei a Apache! — Miller gritou.
A cidade acordou como animal faminto.
Ethan viu o vidro voar, jogou o fósforo na palha encharcada de óleo e soltou os cavalos do estábulo. Fogo subiu pela madeira. Animais dispararam pela rua, quebrando a formação dos homens.
No meio do caos, ele viu Nalin cair.
Esporeou o cavalo, inclinou-se até quase despencar da sela e estendeu a mão.
Ela agarrou seu pulso.
Ele a puxou para cima com um grunhido que quase rasgou suas costas. Balas zumbiram. Um tiro arrancou couro da sela. Eles sumiram no escuro.
O cavalo aguentou até as colinas, depois começou a mancar.
Ethan desmontou, passou a mão no pescoço do animal e sentiu tremores nos músculos. Aquele cavalo fora sua única companhia por anos.
— Temos que deixá-lo — disse Nalin com dor.
Ethan tirou a sela, soltou as rédeas e bateu de leve na garupa.
— Vai, parceiro.
O animal encostou o focinho no ombro dele por um instante. Depois se afastou mancando para o sul, levando um rastro falso.
Ethan e Nalin subiram pelas rochas e se esconderam numa fenda. A patrulha passou abaixo.
— Quando pegarmos a garota — disse um homem, rindo — quero ser o primeiro a quebrar aquela fibra.
Nalin fechou os olhos com força e tapou os ouvidos. O corpo dela começou a tremer de um lugar profundo, antigo.
Ethan segurou suas mãos.
— Olhe para mim. Olhe para a cicatriz nos meus dedos. Você está aqui. Eles estão lá fora. Eu estou aqui.
Ela focou na cicatriz. Voltou aos poucos. O tremor virou raiva fria.
Quando os homens se foram, restaram fome, sede e a certeza de que não podiam continuar correndo.
O livro do xerife revelou uma transferência marcada: Taza e outras pessoas seriam levados à meia-noite para a estação ferroviária.
— Se pegarmos a carroça — disse Ethan — conseguimos testemunhas.
— E Taza — completou Nalin.
Armaram a emboscada num desfiladeiro estreito. Ethan soltou uma rocha que bloqueou a passagem. Nalin gritou da crista oposta, fazendo parecer que havia muitos. Cavalos se assustaram. Guardas caíram.
Ethan rasgou a lona da segunda carroça.
Lá dentro estavam mulheres amarradas, dois meninos, cheiro de medo e confinamento.
Nalin entrou procurando um rosto.
Encontrou Taza no canto.
O cabelo dele havia sido cortado rente. O rosto magro parecia de uma criança que envelhecera cem anos. Quando ela disse seu nome, ele olhou sem reconhecê-la.
— Taza. Sou eu. Nalin.
Ele mordeu a mão dela.
Ela não soltou. Puxou-o contra o peito e segurou enquanto ele se debatia.
— Eu estou aqui — repetiu. — Eu estou aqui.
A fuga custou caro. Uma das mulheres libertadas, Elena, foi atingida durante a retirada. Morreu olhando as estrelas, sem tempo para dizer adeus.
Nalin quis voltar e matar todos.
Ethan segurou seu ombro.
— Se entrarmos nesse caminho, talvez nunca voltemos.
— Eles mataram minha família. Mataram Elena. Transformaram meu irmão nisso. O que a sua lei fez?
Ethan olhou para a noite.
— Nada. Ainda.
Levaram os sobreviventes para um acampamento escondido nas Montanhas Dragoon. O líder, Victorio, reconheceu Ethan.
— Você trouxe soldados ao Rio Salgado.
Ethan não negou.
— Trouxe.
— Então traz morte.
Nalin se colocou entre eles.
— Ele salvou Taza.
— E agora soldados seguirão vocês até nós — disse Victorio. — O menino fica. Ela fica. O branco vai embora.
Nalin agarrou o casaco de Ethan.
— Não.
Ethan sentiu aquilo como faca. Mas viu o medo das famílias no acampamento, mulheres idosas, crianças magras, guerreiros cansados. Sua presença era perigo.
— Ele tem razão.
— Ethan…
Ele entregou a ela o cantil e uma cópia do livro.
— Cuide de Taza. Vou encontrar o juiz Holloway em Tucson. Dizem que odeia Mercer.
— É armadilha.
— É chance.
Ele partiu antes que a coragem acabasse.
Durante três dias, Nalin trabalhou para trazer Taza de volta. Sentava-se ao lado dele e contava histórias da mãe. Fazia o antigo apito de codorna. Cantava baixo as canções que o vento carregava. No começo, ele não respondia. Depois, uma noite, seus olhos se encheram de lágrimas.
— Ele olhou meus dentes — sussurrou. — Mercer disse que eu mordia.
Nalin o abraçou, e dessa vez ele não lutou.
Ethan encontrou o juiz Holloway num quarto de fundos de um bar, tossindo sobre um copo de uísque. O velho leu o livro, os pagamentos, as assinaturas.
— Isso é escravidão — murmurou.
— Assine os mandados.
Holloway olhou para a porta como se já visse a própria morte.
— Se eu assinar, talvez não viva para o julgamento.
— Se não assinar, é só mais um homem de Mercer.
A mão do juiz tremeu, mas assinou.
No caminho de volta, Ethan viu fumaça no céu.
O acampamento havia sido queimado.
Não encontrou corpos, apenas cinzas, postes retorcidos, brinquedos pisoteados, rastros de fuga. Seguiu marcas pequenas na terra: Nalin carregando peso. Dois dias depois, encontrou-a numa fenda de rocha com Taza, Maria e três sobreviventes.
Ela apontou uma Winchester para o peito dele antes de reconhecer seu rosto.
A mulher que ele encontrara na ravina não existia mais. Em seu lugar havia alguém endurecido pela perda.
— Tenho os mandados — disse Ethan. — Precisamos ir ao tribunal federal.
— A lei é a arma deles.
— Então vamos arrancá-la das mãos deles e usar.
A audiência em Tucson atraiu multidão. Ethan confessou seus pecados no estrado. Disse que fora batedor, que guiara soldados, que carregava sangue nas mãos. Não tentou parecer inocente.
Depois leu o livro.
Nomes. Datas. Preços.
Taza mostrou as marcas das correntes no tornozelo.
Então chamaram Nalin.
O advogado de Mercer tentou humilhá-la. Perguntou se ela não viajara sozinha com Ethan. Se não dormira perto dele. Se não se oferecera.
A sala esperou que ela se quebrasse.
Nalin ficou de pé.
— Eu me ofereci — disse.
O silêncio caiu.
— Eu disse: leve-me no seu cavalo e eu lhe darei algo que nenhuma mulher pode dar. Disse isso porque aprendi no mundo de vocês que homens não ouvem pedidos de misericórdia. Ouvem ofertas de carne. Mas ele recusou. Ele me deu água. Deu seu casaco. Lutou por mim e nunca tomou o que eu ofereci.
Ela olhou para Mercer.
— A selvageria não está no meu sangue. Está no que o senhor fez com mulheres e crianças. O senhor é o animal, Sr. Mercer. Apenas usa um terno melhor.
O juiz emitiu mandados.
Mas papel não detém bala.
Naquela noite, homens de Mercer atacaram a pensão onde as testemunhas estavam. Vidros explodiram. Tiros varreram paredes. Ethan derrubou a mesa para proteger Taza. Nalin atirou da janela com precisão fria.
No caos, Miller surgiu no corredor, agarrou Taza pelos cabelos e encostou uma arma à cabeça do menino.
— Soltem as armas.
Nalin deu um passo.
— Eu vou com você. Deixe-o.
Ethan entrou na frente.
— Não. Nunca mais trocamos vidas.
Miller fugiu levando Taza para uma fazenda abandonada no desfiladeiro onde tudo começara.
Ethan e Nalin o seguiram pela noite.
A cabana estava em ruínas. Taza amarrado a uma cadeira. Miller escondido, esperando.
— A água é ouro! — gritou Miller lá de dentro. — Expulsamos vocês e cada gota será nossa!
Ethan o distraiu pela direita. Nalin avançou pela esquerda, baixa e rápida. Miller atirou. Ethan respondeu, acertando a madeira perto da cabeça dele. Nalin entrou rolando, chutou o joelho do delegado. Ethan o derrubou contra a parede podre.
A luta foi feia, sem honra. Poeira, socos, joelhos, desespero. Miller puxou uma faca e feriu a coxa de Nalin. Ethan viu vermelho. Lutaram até a beira do barranco. Miller prometeu matar todos.
Ethan tomou a faca e a cravou no peito dele.
Miller morreu olhando a lua, surpreso por também ser mortal.
Nalin soltou Taza. O menino caiu em seus braços e chorou pela primeira vez.
Parecia o fim.
Mas ao amanhecer, Mercer já estava sobre uma carroça, apontando para eles diante de uma multidão armada.
— Assassinos! Selvagens!
O tribunal, as cicatrizes, os livros, tudo desapareceu diante de um homem branco morto e uma mulher Apache viva.
Ethan segurou Nalin e Taza.
— Não podemos voltar.
— Então somos fugitivos outra vez — disse ela.
— Então cavalgamos.
O inverno os encontrou nas terras altas.
Refugiaram-se numa cabana abandonada com as três mulheres restantes. A neve cobriu passagens. Fome entrou com eles e se sentou perto do fogo. Ferviam agulhas de pinheiro, dividiam migalhas de pão, caçavam quando podiam.
O amor entre Ethan e Nalin não floresceu como flor delicada. Endureceu como ferro no gelo.
Vivia nas mãos dela aquecendo os dedos rachados dele. Na forma como ele deixava a última porção de comida perto de Taza fingindo que não tinha fome. No modo como Nalin encostava a testa na dele à noite, compartilhando respiração porque calor era vida.
Um viajante trouxe notícias: Mercer fora interrogado, mas estava livre. O juiz Holloway se aposentara após ameaças. Testemunhas desapareceram ou mudaram versões.
A justiça ruía sob dinheiro e medo.
Ethan pensou em descer sozinho e matar Mercer.
Nalin percebeu.
— Eu sonho com isso — disse. — Em meus sonhos, entro na casa dele com minha faca e saio leve.
— Mas Taza aprenderia que sangue é a única lei.
Ela fechou os olhos.
— Então terminamos do jeito certo. Ou morremos tentando.
A última chance era um delegado federal em Willcox, um homem de fora da rede de Mercer. Ethan, Nalin, Taza e as sobreviventes desceram das montanhas numa jornada cruel de neve, lama e lobos.
No caminho, uma caravana recusou comida por causa de Nalin e Taza. Um homem apontou espingarda e mandou seguirem andando. Mas uma mulher velha, escondida dos outros, deixou dois pães e um cobertor atrás de um arbusto.
Uma migalha de humanidade pode manter vivos os que o ódio tenta matar.
Em Willcox, o delegado federal ouviu a história, examinou o livro e viu as cicatrizes de Taza.
— Posso agir — disse. — Mas preciso dos registros da mina e das testemunhas vivas.
Tiros interromperam.
Homens de Mercer atacaram perto do rio. Sarah, uma das mulheres libertadas, jogou-se sobre Taza para protegê-lo. Uma bala a atingiu.
Ela morreu na lama depois de sobreviver ao galpão, às correntes, à montanha e à fome.
O delegado olhou para o corpo dela e algo em seu rosto mudou.
— Vou prender Silas Mercer.
Uma hora depois, cercaram o escritório da mina.
Mercer apareceu na janela, pálido, mas ainda sorrindo.
— Cole! Posso fazer tudo desaparecer. Recompensas, acusações, o Exército. Posso lhe dar uma vida nova.
— Qual o preço? — perguntou Ethan.
Mercer apontou para Nalin.
— Entregue a garota. Diga que ela mentiu.
A oferta pairou no ar como veneno.
Ethan olhou para Nalin. Viu a mulher que saíra da ravina, atravessara fogo, neve, vergonha e morte sem perder a alma. Viu Taza ao lado dela, ainda quebrado, mas vivo. Viu todos os mortos exigindo que ele escolhesse direito ao menos uma vez.
— Eu não negocio almas — disse. — E não negocio com escravistas.
Mercer gritou:
— Matem-nos!
A rua explodiu em tiros.
Não houve beleza. Só fumaça, madeira estilhaçada, homens caindo, gritos. Ethan empurrou Nalin para trás de um bebedouro e atirou contra um homem no telhado. O delegado avançou com seus auxiliares. Arrombaram a porta.
Dentro, Mercer tentava queimar papéis no fogão. Virou-se com uma pequena arma. Ethan atirou primeiro, acertando seu ombro. Mercer caiu, a arrogância escorrendo junto com o sangue.
O delegado o algemou.
Os registros principais viraram cinzas, mas o livro, Taza e as testemunhas eram suficientes para iniciar um processo federal. Não para curar tudo. Não para ressuscitar Sarah, Elena, Ahote ou os muitos nomes apagados. Mas suficiente para derrubar a primeira pedra da muralha.
Mercer foi levado preso.
Nem todos comemoraram. Muitos moradores olharam para Nalin como se a culpa ainda fosse dela. O ódio não morre apenas porque um homem rico cai. Ele se esconde, espera, muda de roupa.
O delegado entregou a Ethan uma autorização de viagem.
— O Exército ainda procura você. Mercer tem amigos. Se ficarem, viram alvos. Levem o menino para longe.
Ethan olhou para Nalin.
— Temos Taza — disse ela. — Temos os vivos.
Partiram antes do amanhecer.
A cidade dormia ou fingia dormir. A alguns quilômetros, pararam numa colina. O céu clareava em tons de roxo pálido. O ar cheirava a sálvia, frio e futuro.
Ethan aproximou o cavalo do dela.
— Vamos correr de novo — disse.
Nalin segurou sua mão.
— Não. Não vamos correr. Vamos cavalgar.
Ela olhou para Taza, montado num pônei pequeno, o apito de osso outra vez entre os dedos. O menino levou o instrumento aos lábios e soltou um som fraco, o chamado antigo que usava para responder à irmã na infância.
Nalin sorriu pela primeira vez sem dor completa.
Ethan tocou o dorso da mão dela com o polegar.
— Você nunca mais precisará implorar.
— Eu sei.
Eles se inclinaram um para o outro. O beijo não apagou o passado, não prometeu paz fácil, não transformou o Oeste em lugar justo. Mas confirmou que ainda eram reais. Que o mundo tentara destruí-los e falhara.
Ao norte, havia território desconhecido. Talvez outra cidade que os odiasse. Talvez outra guerra. Talvez uma pequena fazenda perto de água limpa, onde Taza pudesse reaprender a ser menino e Nalin pudesse dormir sem acordar procurando fogo.
Ethan virou o cavalo.
Nalin cavalgou ao lado dele.
Taza veio atrás, carregando nos olhos a sombra do que sobrevivera e, pela primeira vez, uma centelha do que ainda poderia viver.
O sol nasceu sobre a terra árida, derramando luz nas rochas, nos espinhos, nos rastros.
Eles não estavam seguros.
Mas estavam juntos.
E, naquela manhã, isso era mais do que fuga.
Era começo.