11 jogos brutais que chocaram a Roma Antiga
A Areia Que Engoliu a Nossa Casa
Na noite em que o meu pai vendeu o silêncio da nossa família, a minha mãe partiu a única taça de vidro que tínhamos em casa.
Não foi por descuido. Não foi por tremor nas mãos, embora elas tremessem desde o amanhecer. Foi de propósito. Levantou a taça como se levantasse uma pequena lua transparente contra a luz amarela da lamparina, olhou para o meu pai do outro lado da mesa e deixou-a cair sobre as lajes frias da cozinha.
O som foi seco, breve, mas bastou para nos calar a todos.
O meu irmão Marco, que nessa altura tinha dezassete anos e ainda conservava no rosto a arrogância bonita dos rapazes que acreditam que o mundo se dobra perante a juventude, deu um passo atrás. Eu fiquei imóvel junto ao forno, com as mãos enfarinhadas, incapaz de perceber se aquela explosão de vidro era o princípio de uma tragédia ou o fim de uma mentira antiga.
O meu pai, Caio Varo, inspector dos subterrâneos do anfiteatro Flávio, não se levantou. Continuou sentado, com os cotovelos em cima da mesa e o rosto mergulhado numa sombra que parecia ter vindo directamente da arena. O cheiro dele era sempre o mesmo quando regressava dos jogos: ferro, suor, pó, animais assustados e algo mais fundo, mais difícil de lavar. Um cheiro que não vinha da roupa, mas da alma.
— Tu assinaste — disse a minha mãe.
Não era uma pergunta.
O meu pai passou a língua pelos lábios. O silêncio dele era mais culpado do que qualquer confissão.
— Assinaste, Caio?
Marco franziu a testa.
— Assinou o quê?
A minha mãe olhou para mim, depois para ele. Havia nos seus olhos uma pena tão terrível que me senti mais velha em segundos.
— O teu pai entregou o teu nome ao lanista.
Marco riu. Riu porque não compreendeu. Riu porque, em Roma, os homens da nossa rua aprendiam cedo a transformar o medo em troça.
— Ao lanista? Para quê? Eu não sou escravo. Não sou criminoso. Não sou condenado.
O meu pai fechou os olhos.
Foi então que o riso do meu irmão morreu.
— Pai?
A palavra saiu-lhe pequena. Mais pequena do que ele. Mais pequena do que aquela casa. Mais pequena do que Roma inteira.
A minha mãe avançou para o meu pai com uma fúria silenciosa, daquelas que não precisam de gritos para destruir uma vida.
— Diz-lhe. Diz ao teu filho o que prometeste em troca da tua promoção.
O meu pai ergueu finalmente o rosto. Vi nele uma vergonha tão funda que quase tive pena. Quase. Mas a pena durou menos que o brilho dos cacos no chão.
— Não é para morrer — disse ele, como se essa frase pudesse salvar-nos. — É apenas para a apresentação inicial. Um treino público. Uma demonstração. O imperador quer jovens romanos, livres, fortes, a abrir os jogos. Será uma honra.
— Honra? — A minha mãe soltou uma gargalhada sem alegria. — Chamas honra a metê-lo naquela areia?
Marco empalideceu.
— Que jogos?
O meu pai não respondeu.
Mas eu sabia. Todos sabíamos.
Na manhã seguinte, o Coliseu abriria as suas portas para mais uma semana de espectáculos em honra de Tito. Cinquenta mil pessoas gritariam nas bancadas. Senadores, vendedores, soldados, crianças, viúvas, prostitutas, escribas, sacerdotes, mercadores e ladrões sentar-se-iam lado a lado para verem Roma mostrar ao mundo que dominava homens, feras, mares e deuses. Nos túneis, onde o meu pai trabalhava, jaulas seriam arrastadas por roldanas, plataformas subiriam como milagres mecânicos e homens com nomes próprios seriam reduzidos a personagens descartáveis.
E agora o meu irmão estava entre eles.
— Eu não vou — disse Marco.
O meu pai bateu com a mão na mesa.
— Vais.
A palavra ecoou pela cozinha como uma sentença.
A minha mãe aproximou-se dele e, pela primeira vez em toda a minha vida, vi-a cuspir-lhe na cara.
— Então perdeste-nos.
O meu pai não se mexeu. A saliva escorreu-lhe pela face como uma lágrima que ele já não merecia chorar.
Nessa noite, compreendi que Roma não começava no Senado nem terminava nas muralhas. Roma sentava-se à mesa connosco. Comia o nosso pão. Beijava-nos a testa. Chamava-se pai. E, quando chegava a hora, empurrava-nos para a arena em nome da glória.
Eu chamava-me Lúcia Varo e, até essa noite, acreditava que o mal era sempre reconhecível: vinha com espadas, grilhões, ordens gritadas, capas vermelhas, mandíbulas de leão. Descobri que estava enganada. O mal também vinha com mãos calejadas que nos tinham ensinado a andar. Vinha com a voz do homem que nos contava histórias antes de dormirmos. Vinha com uma assinatura feita à pressa numa tabuinha de cera.
E começava dentro de casa.
I. A cidade que aplaudia
Roma acordou antes do sol.
Da nossa janela estreita, no Aventino, vi a cidade mexer-se como uma besta enorme, impaciente por ser alimentada. Os vendedores desciam as ruas com cestos de figos, pão escuro, queijo e vinho aguado. Mulheres com túnicas gastas puxavam crianças pela mão. Escravos carregavam almofadas para os assentos dos ricos. Soldados riam alto, com a brutalidade alegre de quem já viu demais para se comover com pouco. Ao longe, o Coliseu erguia-se como uma montanha construída por homens que desejavam competir com os deuses.
A minha mãe não dormira. Estava sentada junto ao leito de Marco, segurando-lhe a mão como se pudesse impedir a manhã de o levar.
Ele também não dormira. Tinha o olhar fixo nas vigas do tecto.
— Não posso fugir? — perguntou-me quando o meu pai saiu para falar com dois guardas à porta.
Eu quis dizer que sim. Quis abrir a arca, dar-lhe a pequena bolsa de moedas que eu escondia entre panos velhos, empurrá-lo para fora da cidade, inventar um caminho até Ostia, até ao mar, até qualquer lugar onde o nome Varo não o encontrasse.
Mas Roma tinha ouvidos em cada esquina.
— Para onde irias? — murmurei.
Marco virou a cabeça para mim.
— Para longe dele.
Não precisou dizer “pai”. A palavra estava contaminada.
A minha mãe apertou-lhe a mão.
— O teu pai foi fraco. Mas tu não és mercadoria.
— Sou, se ele assinou.
A minha mãe levantou-se de repente.
— Não digas isso.
Marco sorriu sem alegria.
— Mãe, em Roma tudo é mercadoria. Trigo, azeite, votos, corpos, nomes, medo. Até a dignidade tem preço.
Não respondi. Porque ele tinha razão.
O meu pai voltou pouco depois. Trazia consigo a túnica oficial, limpa demais para parecer honesta. Atrás dele, dois homens esperavam à porta. Não eram soldados de guerra. Eram homens da arena. Reconhecia-os pela forma como olhavam para os corpos, medindo pernas, ombros, pescoços, como mercadores que avaliam bois.
— Marco — disse o meu pai — veste-te.
A minha mãe colocou-se entre eles.
— Não o levas.
O meu pai suspirou.
— Flávia, não tornes isto mais difícil.
— Mais difícil? — Ela apontou para a porta. — Difícil foi carregar os teus filhos enquanto tu passavas noites nos subterrâneos a aprender como se faz uma multidão rir do medo alheio. Difícil foi lavar as tuas túnicas sem perguntar de quem era o cheiro que trazias. Difícil foi fingir que o pão desta casa não vinha da areia dos mortos. Mas isto, Caio? Isto não é difícil. Isto é imperdoável.
O meu pai ficou imóvel.
Durante um instante, vi nele uma rachadura. Talvez ainda existisse ali o homem que, anos antes, me carregava aos ombros para eu ver as procissões. Talvez ainda existisse o pai que ensinara Marco a lançar pedras no Tibre. Mas a rachadura fechou-se.
— Se ele não for — disse — todos nós cairemos.
Foi então que percebi.
— O que fizeste? — perguntei.
O meu pai olhou para mim.
— Nada que consigas compreender.
— Então explica.
Ele hesitou.
A minha mãe virou-se lentamente.
— Caio?
Ele baixou a voz.
— Houve um acidente nos subterrâneos. Uma plataforma cedeu durante um ensaio. Morreram dois homens de Bestiário Lentulo. Um animal escapou e feriu o sobrinho de um senador. Procuravam um culpado.
— E tu compraste a tua salvação com o nosso filho — disse a minha mãe.
O silêncio confirmou tudo.
Marco levantou-se. Caminhou até ao pai e parou diante dele. Eram quase da mesma altura agora. Mas nunca tinham parecido tão distantes.
— Olha para mim — disse Marco.
O meu pai olhou.
— Quando eu pisar aquela areia, não vou levar o teu nome. Vou levar o dela.
Apontou para a minha mãe.
— E se eu voltar, tu já não serás meu pai.
O meu pai engoliu em seco.
— Vais voltar.
Marco riu baixo.
— Em Roma, pai, só os poderosos prometem o que não controlam.
Levaram-no ao nascer do sol.
Eu segui-os.
Não pedi permissão. Enrolei um véu escuro na cabeça, escondi uma pequena faca de cozinha sob a túnica e desci pelas ruas atrás do grupo. A minha mãe não tentou impedir-me. Apenas me segurou pelo pulso antes de eu sair.
— Vê tudo — disse ela. — E lembra-te.
Não compreendi então a profundidade desse pedido. Pensava que queria que eu vigiasse Marco. Mas a minha mãe pedia-me outra coisa. Pedia-me que não permitisse que Roma nos ensinasse a esquecer.
O caminho até ao Coliseu era uma procissão de excitação. As pessoas falavam dos jogos como quem fala de casamento, festa, milagre. Um padeiro dizia que naquela manhã haveria animais vindos da África. Um soldado apostava que os criminosos da Gália durariam pouco. Uma criança perguntava ao avô se os leões eram maiores do que cavalos. O velho respondeu que sim, claro que sim, e riu.
Eu quis tapar os ouvidos.
Ao aproximar-me do anfiteatro, senti o chão vibrar com a multidão. Cinquenta mil vozes ainda não gritavam em uníssono, mas já respiravam juntas. O Coliseu não era apenas um edifício. Era uma boca.
E Roma entrava nela feliz.
II. Os subterrâneos
Eu conhecia uma entrada lateral porque, em criança, o meu pai me levara uma vez ao exterior dos corredores de serviço. Disse-me, nessa altura, que os subterrâneos eram como as entranhas de um monstro: escuros, húmidos, cheios de mecanismos e segredos. Ele rira quando eu lhe perguntei se o monstro estava vivo.
Agora sabia a resposta.
O guarda da entrada não me reconheceu. Ou, se reconheceu, fingiu não reconhecer. Homens como ele viam muitas mulheres nos dias de jogos: esposas de funcionários, vendedoras, curandeiras, escravas enviadas com recados, amantes dos ricos. Entrei com a cabeça baixa e o coração a bater como um tambor de guerra.
Lá dentro, o ar era espesso. Cheirava a madeira molhada, ferro, palha suja, pele de animal, suor, medo. A luz vinha de tochas presas às paredes e de aberturas estreitas por onde o sol caía em lâminas. Homens gritavam ordens. Correntes raspavam no chão. Roldanas rangiam. Em jaulas cobertas por panos, formas enormes mexiam-se, soltando sons baixos que arrepiavam a nuca.
Vi Marco perto de uma parede, rodeado por outros jovens. Vestiam túnicas simples, brancas, demasiado limpas. Não pareciam combatentes. Pareciam oferendas.
Aproximei-me.
— Marco.
Ele virou-se, espantado.
— Lúcia? Estás louca?
— Provavelmente.
— Sai daqui.
— Não.
Ele olhou à volta.
— Se o pai te vir…
— O pai já não manda em mim.
Marco abriu a boca para responder, mas um homem corpulento aproximou-se. Tinha a barba aparada, o peito largo e os olhos de quem aprendera a não desperdiçar compaixão.
— Quem és tu?
Antes que eu respondesse, Marco disse:
— Minha irmã.
O homem sorriu.
— Ah. Família. Roma adora família. Choram muito antes dos jogos e aplaudem muito depois.
— Ele não é gladiador — disse eu.
— Hoje ninguém é o que diz ser. — O homem avaliou Marco. — O teu irmão só vai atravessar a arena, levantar a espada e jurar lealdade ao imperador. Depois sai.
— E se algo correr mal?
Ele inclinou a cabeça.
— Menina, isto é a arena. Algo corre sempre mal. A questão é se o público gosta.
Senti a faca escondida sob a túnica pesar contra a coxa. Não seria suficiente para nada. Nem para salvar Marco, nem para ferir Roma. Mas dava-me a ilusão de não estar completamente indefesa.
— És Lentulo? — perguntei.
O homem ergueu uma sobrancelha.
— Conheces o meu nome?
— O meu pai falou de ti.
— Caio Varo. Sim. Um homem útil. Demasiado ambicioso, talvez, mas útil.
Marco endureceu.
— O que vai acontecer exactamente?
Lentulo olhou para ele como se a pergunta fosse ingénua.
— Entrarás com os outros. O mestre de cerimónias falará da juventude romana, da disciplina, da grandeza do império. Vocês erguerão as espadas. A multidão gritará. Depois sairão pela porta norte.
— Só isso?
— Só isso.
Mas os olhos dele desviaram-se por uma fracção de segundo.
Eu vi.
— Está a mentir — disse.
Lentulo suspirou.
— Todas as irmãs acham que sabem ler homens.
— E todos os homens acham que mentem melhor do que mentem.
O sorriso dele desapareceu.
— Cuidado, menina.
Marco deu um passo para a frente.
— Responde-lhe.
Lentulo aproximou-se dele.
— Queres a verdade? A verdade é que o programa mudou esta madrugada. O público anda inquieto. Ontem, as caçadas foram curtas. Os animais estavam fracos. O imperador não gosta de vaias. Por isso, hoje, a abertura precisa de surpresa.
O sangue fugiu-me do rosto.
— Que surpresa?
Lentulo não respondeu.
Atrás de nós, uma porta abriu-se. O meu pai entrou acompanhado de dois supervisores. Quando me viu, parou como se tivesse levado uma pancada.
— Lúcia.
— Que surpresa? — repeti, olhando directamente para ele.
O meu pai aproximou-se depressa.
— Não devias estar aqui.
— E Marco devia?
Ele olhou para Lentulo.
— Eu exigi garantias.
Lentulo encolheu os ombros.
— As garantias mudam quando o programa muda.
Marco soltou uma gargalhada amarga.
— Ouviste, pai? Até as garantias têm medo da multidão.
O meu pai agarrou Lentulo pelo braço.
— Não foi isto que combinámos.
Lentulo fitou a mão no braço dele até o meu pai a retirar.
— Combinaste salvar o teu cargo. O resto foste tu que imaginaste.
A raiva subiu-me à garganta.
— O que vai acontecer?
Lentulo ajeitou a túnica.
— Um ensaio de coragem. Os jovens atravessam a arena enquanto uma fera contida é exibida. Nada de mais.
— Contida como?
— Com correntes.
— E se as correntes se soltarem?
Ele sorriu outra vez.
— Então Roma terá uma manhã memorável.
Marco fechou os punhos. O meu pai parecia envelhecer diante dos meus olhos.
— Eu cancelo — disse ele.
Lentulo riu.
— Tu? Cancelas? Caio, o teu nome já está em três tábuas. O rapaz está no programa. A família Varo foi anunciada como exemplo de lealdade. Queres retirar o teu filho diante de cinquenta mil pessoas? Queres que perguntem porquê? Queres que o acidente dos subterrâneos volte a ser discutido? Queres que o senador Júlio Próculo descubra quem falsificou o relatório?
O meu pai ficou branco.
Eu dei um passo atrás.
— Falsificaste?
Ele não respondeu.
A história completou-se sozinha. A plataforma caída. Os mortos. O sobrinho ferido. O relatório alterado. A culpa atirada para homens sem protecção. E, para impedir que a verdade emergisse, o meu pai aceitara transformar Marco num símbolo vivo da sua lealdade.
Roma não o corrompera de repente. Apenas lhe dera oportunidades sucessivas de vender pedaços de si até nada restar.
— Lúcia — disse ele, com a voz quebrada — eu tentei proteger-vos.
— De quem? — perguntei. — De Roma ou de ti?
Ele desviou o olhar.
Um rugido ecoou pelos corredores. Baixo, profundo, vindo de alguma jaula coberta.
Os jovens à volta de Marco estremeceram.
Lentulo bateu palmas.
— Está na hora.
III. A boca de pedra
A arena vista de baixo era diferente.
De cima, o Coliseu era espectáculo: mármore, arcos, bandeiras, túnicas coloridas, vendedores a gritar, senadores a sorrir, mulheres abanando leques, crianças comendo tâmaras. De baixo, era uma máquina. Cada porta tinha função. Cada corda obedecia a uma mão. Cada grito da multidão era filtrado pelos túneis e transformado num som monstruoso, como se o próprio edifício exigisse alimento.
Marco foi colocado em fila com os outros jovens. Deram-lhe uma espada curta sem fio.
— É de teatro — murmurei.
Ele olhou para a lâmina.
— A arena inteira é de teatro. Só as mortes são verdadeiras.
Quis abraçá-lo. Um guarda impediu-me.
O meu pai tentou aproximar-se, mas Marco virou-lhe as costas.
A trombeta soou.
As portas abriram-se.
A luz invadiu o túnel com violência. Durante um segundo, não vi nada. Depois, a arena apareceu: vasta, amarela, coberta de areia recentemente alisada. Nas bancadas, uma massa humana ondulava. O som dos aplausos desceu sobre nós como chuva de pedras.
Os jovens avançaram.
Eu corri por um corredor lateral que dava para uma abertura baixa, de onde os funcionários podiam observar sem serem vistos. O meu pai seguiu-me. Não falámos.
No centro da arena, o mestre de cerimónias ergueu os braços. Era um homem magro, com voz treinada para transformar crueldade em poesia.
— Povo de Roma! Hoje, antes que as feras mostrem a vastidão das conquistas imperiais, antes que os condenados recebam a justiça dos deuses e dos homens, contemplai a juventude livre desta cidade! Filhos de famílias leais! Sangue romano! Colunas do futuro!
A multidão aplaudiu.
Vi Marco entre eles. Estava pálido, mas mantinha-se direito. Por um instante, senti orgulho. Depois senti terror, porque a coragem é bela apenas quando não é exigida por carrascos.
O mestre continuou:
— E para provar que Roma não teme a força bruta, será trazido diante deles um rei das terras africanas, domado pelo engenho romano, vencido antes mesmo de lutar!
Um portão escuro abriu-se.
Homens puxaram correntes. Da sombra surgiu um leão enorme, magro, com a juba irregular, os olhos dourados e febris. Não vinha livre, mas também não vinha seguro. As correntes prendiam-no pelo pescoço e pelas patas dianteiras. Quatro tratadores mantinham distância com lanças.
A multidão enlouqueceu.
Marco não se mexeu.
O leão rugiu.
Senti o som dentro dos ossos.
— As correntes são fortes? — perguntei ao meu pai.
Ele não respondeu.
Olhei para ele e vi que acompanhava os tratadores com os olhos de um homem que conhece mecanismos e percebe falhas. A sua boca entreabriu-se.
— A argola esquerda — murmurou.
— O quê?
Ele empurrou-me para trás.
— Fica aqui.
Mas eu vi.
Uma das correntes, presa a uma estaca de ferro cravada na areia, estava mal fixada. Talvez por pressa. Talvez por descuido. Talvez de propósito. Na arena, a fronteira entre acidente e encenação era sempre conveniente.
O leão puxou uma vez. A estaca cedeu um pouco.
O público gritou, encantado.
Os jovens recuaram.
O mestre de cerimónias, percebendo o perigo, transformou-o em espectáculo:
— Vede! Até acorrentado, o mundo conquistado tenta rebelar-se!
O leão puxou outra vez.
A argola saltou.
Tudo aconteceu depressa.
Um tratador caiu. Os outros largaram parte das correntes. Os jovens dispersaram. A multidão primeiro suspendeu o fôlego, depois explodiu num rugido maior do que o do animal. Não era horror. Era êxtase.
Marco ficou no centro.
Talvez por choque. Talvez porque, se corresse, atrairia a fera. Talvez porque a dignidade, quando encurralada, se parece muito com loucura.
O leão virou-se para ele.
O meu pai saiu disparado pelo corredor.
Eu gritei o nome de Marco, mas a minha voz perdeu-se entre cinquenta mil.
O meu pai entrou na arena por uma porta lateral com uma lança de tratador nas mãos. Não sei como conseguiu. Talvez todos estivessem demasiado ocupados a assistir. Talvez o destino, que gosta de ironias, lhe tenha dado uma última oportunidade de ser pai.
Ele correu para Marco.
— Sai! — gritou.
Marco virou a cabeça.
Foi esse movimento que salvou e condenou tudo.
O leão lançou-se.
O meu pai atirou a lança contra a areia, não contra o animal, fazendo-a bater perto das patas para o desviar. Por um instante, resultou. Marco correu. Dois tratadores recuperaram as correntes. Outros homens avançaram com escudos.
A multidão levantou-se.
Alguns aplaudiam o meu pai. Outros vaiavam, porque o perigo fora interrompido cedo demais.
O leão foi arrastado de volta para a sombra.
Marco caiu de joelhos perto da saída. O meu pai aproximou-se dele, ofegante, coberto de pó.
Durante um segundo, pensei que o meu irmão o abraçaria.
Mas Marco apenas o olhou.
— Agora queres salvar-me?
O meu pai baixou a cabeça.
A arena inteira viu aquele gesto. Talvez não soubessem a história, mas sentiram a ferida. Roma adorava sangue, mas também adorava drama familiar. A multidão murmurou. O mestre de cerimónias, sempre atento, percebeu que havia ali uma narrativa mais poderosa do que a prevista.
— Povo de Roma! — anunciou. — Vede o amor de um pai romano! Vede como até os servidores do anfiteatro desafiam o perigo pela sua descendência! A família Varo honra a cidade!
Aplausos.
Aplausos para uma mentira.
Marco levantou-se lentamente. Olhou para as bancadas, depois para o pai, depois para a areia.
E cuspiu no chão.
Não foi um gesto grande. Não derrubou imperadores. Não silenciou a multidão. Mas eu vi o rosto do meu pai desabar. Vi também Lentulo, à distância, estreitar os olhos.
O meu irmão saíra vivo.
Mas a nossa família acabara de declarar guerra a Roma.
IV. A casa sem pai
Nessa noite, o meu pai voltou tarde.
A cidade festejava. Nas tabernas, homens recontavam o momento do leão como se tivessem participado nele. Alguns diziam que Marco enfrentara a fera sem tremer. Outros garantiam que o meu pai lutara como Hércules. Uma criança, na rua, brincava com uma vara, imitando a lança atirada à areia. Já a mentira crescia, ganhava músculos, tornava-se lenda de esquina.
Em nossa casa, ninguém falava.
Marco tinha uma marca roxa no braço, feita por uma queda. A minha mãe limpou-lhe a pele com vinho e ervas. Ele suportou tudo em silêncio. Quando o meu pai entrou, ela não levantou os olhos.
Ele parou à porta.
— Marco.
O meu irmão continuou sentado.
— Filho.
— Não uses essa palavra.
O meu pai fechou a porta devagar.
— Salvei-te.
A minha mãe ergueu finalmente o rosto.
— De um perigo para o qual tu o levaste.
Ele cambaleou como se a frase o atingisse fisicamente.
— Eu sei.
A confissão, tão simples, surpreendeu-me. Esperava desculpas, raiva, orgulho ferido. Mas vi apenas exaustão.
— Lentulo vai usar o que aconteceu — disse o meu pai. — O mestre de cerimónias também. Amanhã vão querer Marco outra vez.
A minha mãe levantou-se.
— Nunca.
— Não depende de nós.
Marco riu.
— Claro que depende. Basta eu desaparecer.
— Não conseguirás sair da cidade — disse o meu pai. — O teu nome corre nas listas. És agora o jovem que enfrentou o leão. És útil.
— Útil para quem?
— Para todos menos para ti.
A frase pairou na cozinha.
Eu sentei-me, sentindo que as pernas já não me obedeciam.
— Então o que fazemos?
O meu pai olhou para mim. Pela primeira vez em anos, não me pareceu um funcionário de Roma, mas um homem perdido.
— Há uma forma.
A minha mãe cruzou os braços.
— Agora tens uma forma?
— Tenho provas contra Lentulo. E contra Próculo. Relatórios, pagamentos, alterações de programa, listas de condenados trocadas por subornos, animais declarados mortos antes de chegarem para esconder roubos, escravos enviados para a arena no lugar de homens protegidos.
Marco inclinou-se para a frente.
— E contra ti?
O meu pai não hesitou.
— Também.
A minha mãe respirou fundo.
— Onde estão?
— Nos arquivos inferiores. Numa arca selada.
— Porque guardaste isso?
Ele sorriu com tristeza.
— Porque os cobardes gostam de acreditar que um dia serão corajosos.
Ninguém respondeu.
Lá fora, Roma cantava.
O meu pai pousou uma pequena chave sobre a mesa.
— Amanhã, durante os jogos do meio-dia, haverá menos vigilância nos arquivos. Todos estarão ocupados com as execuções. Eu posso entrar. Mas não posso sair sozinho com as tábuas. Revistar-me-iam.
Olhou para mim.
— Tu consegues passar despercebida.
A minha mãe levantou-se com violência.
— Não metas a nossa filha nisto.
— Ela já está nisto — respondeu ele, baixo. — Todos estamos.
Eu peguei na chave. Estava fria.
Marco abanou a cabeça.
— Não. Eu vou.
— Tu és reconhecido agora — disse o meu pai. — Se te virem nos corredores, chamam Lentulo.
— E se a virem?
— Verão uma rapariga com um cesto.
A minha mãe agarrou-me a mão.
— Lúcia, não.
Olhei para ela. Pensei na taça partida. No pedido: vê tudo e lembra-te.
— Eu vou.
O meu pai fechou os olhos, talvez de alívio, talvez de culpa.
Marco levantou-se.
— Se ela for, eu também vou.
— Não — disse eu. — Tu ficas com a mãe.
— Lúcia…
— Já te empurraram uma vez para a arena. Não te vou empurrar outra.
Ele olhou-me com uma ternura ferida.
— Sempre foste mais feroz do que eu.
— Só aprendi a esconder melhor.
Dormimos pouco. Ou fingimos dormir. Antes do amanhecer, encontrei a minha mãe acordada junto ao forno, amassando pão como se a repetição dos gestos pudesse impedir o mundo de se desmanchar.
— Quando eu era menina — disse ela sem olhar para mim — o meu pai levou-me aos jogos uma vez. Pensei que seria uma festa. Todos falavam como se fosse. Comprei figos com mel. Sentei-me ao lado dele. Depois trouxeram um homem para a arena. Não me lembro do crime. Lembro-me apenas de que ele procurava alguém nas bancadas. Talvez a mulher. Talvez a mãe. Talvez ninguém. A multidão ria porque ele tremia.
Parou de amassar.
— O meu pai aplaudiu. E eu, porque era criança e o amava, bati palmas também. Durante anos, o som das minhas próprias mãos perseguiu-me.
Olhei para ela, sem saber o que dizer.
— Não deixes que te ensinem a aplaudir, Lúcia.
Abracei-a.
— Não vou.
Ela segurou-me o rosto.
— Se encontrares a verdade, traz. Se encontrares apenas perigo, volta. Nenhuma prova vale a tua vida.
Eu queria prometer. Mas sabíamos que algumas promessas são apenas panos sobre feridas abertas.
V. Os arquivos inferiores
Voltei ao Coliseu com um cesto de pães coberto por pano. O meu coração batia tão forte que temi que os guardas o ouvissem. Mas Roma era barulhenta demais para escutar uma rapariga.
Passei pela entrada de serviço junto com outras mulheres. Uma carregava jarros de água. Outra levava ligaduras. Uma terceira trazia perfumes para mascarar o cheiro dos camarotes ricos. Ninguém me perguntou nada.
Nos subterrâneos, o caos era maior do que no dia anterior. Os jogos prosseguiam em ciclos: manhã para caçadas, meio-dia para condenações, tarde para combates. Cada parte exigia homens, animais, mecanismos, músicos, escribas, sacerdotes, vendedores, guardas, carrascos e poetas. A crueldade romana não era desordem. Era administração.
Vi o meu pai perto de uma escada. Não falou comigo. Apenas passou por mim e deixou cair uma tira de couro. Dentro estava desenhado um mapa simples: três corredores, uma sala, uma marca junto a uma parede.
Segui.
Quanto mais descia, mais frio ficava. Os sons da arena chegavam abafados, como trovões debaixo da terra. De vez em quando, o público explodia em aplausos. Cada aplauso significava que alguém, algures, perdera alguma coisa: a vida, a dignidade, a esperança, o nome.
A porta dos arquivos ficava atrás de uma cortina grossa. Havia um guarda sentado num banco, comendo azeitonas. Pensei na faca escondida e quase ri da minha própria estupidez. Eu não era heroína de lendas. Era uma rapariga com medo e pão.
Aproximei-me.
— Para os escribas — disse, levantando o cesto.
O guarda mastigou devagar.
— Que escribas?
— Os de Lentulo. Disseram que queriam pão antes do meio-dia.
Ele olhou para mim durante tempo demais.
— Não te vi antes.
— Também eu não te vi, e no entanto cá estamos.
A insolência escapou-me antes que eu a travasse. O guarda piscou os olhos, depois riu.
— Tens língua.
— E pão. Qual deles queres discutir?
Ele levantou-se, pegou num pão e mordeu.
— Entra. Mas rápido.
Passei.
A sala era estreita, cheia de prateleiras com tábuas de cera, rolos, selos, listas. O coração de Roma não era feito de mármore. Era feito de registos. Cada morte precisava de nome, número, autorização, custo. Até o horror exigia contabilidade.
Procurei a marca do mapa. Uma parede de madeira. Uma arca baixa. A chave entrou com dificuldade. Quando a tampa se abriu, senti que estava a levantar a tampa do túmulo do meu pai.
Dentro havia tábuas pequenas, algumas envoltas em pano. Peguei nas primeiras e li o suficiente para compreender: pagamentos a funcionários, substituições de condenados, ordens para enfraquecer animais antes dos jogos, notas sobre acidentes ocultados, nomes de famílias chantageadas. Entre elas, uma tabuinha com o nome de Marco.
“Oferta voluntária da família Varo para demonstração pública de coragem.”
Oferta voluntária.
Quase parti a tabuinha com as mãos.
Enfiei tudo no fundo do cesto, sob os pães. Fechei a arca. Estava prestes a sair quando ouvi vozes no corredor.
— Ela entrou aqui?
Reconheci Lentulo.
O guarda respondeu:
— Uma rapariga do pão.
— Idiota.
Procurei saída. Nenhuma. Só a porta por onde entrara e uma abertura alta, demasiado estreita para uma pessoa.
As vozes aproximavam-se.
Escondi-me atrás de uma prateleira. O cesto ficou preso contra o peito. A porta abriu.
Lentulo entrou com dois homens.
— Procurem.
Os homens começaram pelas prateleiras. Um deles derrubou rolos. Outro abriu caixas. Lentulo caminhava devagar, como quem saboreia a caça.
— Lúcia Varo — chamou ele. — Sei que estás aqui.
Fechei os olhos.
— O teu pai sempre subestimou as consequências. Achou que podia guardar segredos e escolher o dia de se tornar honrado. Mas a honra atrasada costuma chegar morta.
Um dos homens aproximou-se da minha prateleira.
Agarrei a faca.
Antes que ele me visse, um estrondo ecoou no corredor. Gritos. Correria. Um animal urrando. Lentulo virou-se.
— O que foi agora?
Um funcionário apareceu à porta, pálido.
— Problema na plataforma oriental. A jaula subiu antes do tempo.
Lentulo praguejou.
— Fiquem aqui — ordenou aos homens. — Ninguém sai.
Saiu.
Os dois homens trocaram olhares. Um deles resmungou que Lentulo os tratava como cães. O outro foi à porta espreitar o caos.
Era a única oportunidade.
Saí de trás da prateleira e empurrei a estante com toda a força. Não caiu completamente, mas inclinou-se o suficiente para espalhar tábuas e rolos pelo chão. O homem mais próximo tropeçou. O outro virou-se. Corri para a porta.
Ele agarrou o meu véu.
O tecido apertou-me a garganta.
Puxei a faca e cortei o véu, não a mão dele. O pano ficou-lhe entre os dedos. Eu escapei para o corredor.
Corri.
Não sabia para onde. O mapa na minha cabeça desaparecera. Só havia tochas, sombras, gritos, portas. O cesto batia-me contra a anca. Uma tabuinha caiu, mas não parei. Subi uma escada, virei à esquerda, quase choquei com dois tratadores que puxavam uma corrente, depois entrei numa passagem estreita.
Ouvi Lentulo atrás de mim.
— Apanhem-na!
A multidão rugiu acima.
De repente, a passagem abriu-se para uma zona de plataformas. Havia mecanismos de madeira, cordas, contrapesos, alçapões que davam para a arena. Homens trabalhavam freneticamente. Uma plataforma subiu, levando arbustos artificiais para uma cena mitológica. Outra desceu vazia, coberta de areia.
Vi o meu pai.
Ele estava junto a uma roda de madeira, ajudando a controlar uma jaula. Quando me viu, percebeu tudo.
— Lúcia!
Corri para ele.
— Tenho as provas.
Ele agarrou o cesto.
— Vai pela saída norte. Marco está à tua espera perto do templo de Vénus.
— E tu?
— Vou atrasá-los.
— Não.
Ele tocou-me no rosto. Foi a primeira vez, desde a infância, que o seu gesto não me pareceu pesado.
— Uma vez na vida, deixa-me ser teu pai.
Lentulo apareceu na passagem.
— Caio!
O meu pai empurrou-me para trás de uma plataforma.
— Vai!
Eu fui.
Mas olhei uma última vez.
Vi Lentulo avançar. Vi o meu pai colocar-se entre ele e o caminho. Vi dois homens cercá-lo. Não vi o resto, porque a plataforma começou a subir e a madeira tapou-me a visão. Quando dei por mim, estava a emergir na própria arena, atrás de um cenário pintado, sob o sol brutal, diante do rugido de Roma.
VI. A rapariga na areia
Por um momento, ninguém percebeu que eu não fazia parte do espectáculo.
A cena preparada era uma recriação de uma floresta sagrada. Havia árvores falsas, pedras pintadas, uma pequena estrutura de madeira que imitava um altar. O público esperava que surgissem actores condenados a representar uma lenda qualquer, com final cruel e previsível. Em vez disso, apareci eu: uma rapariga com túnica suja, cabelo solto, cesto de pão nos braços e medo nos olhos.
O silêncio espalhou-se em ondas.
Depois começaram os murmúrios.
Eu podia ter corrido para a saída. Talvez conseguisse. Talvez não. Mas enquanto estava ali, no centro da máquina, compreendi uma coisa terrível: Roma só via aquilo que acontecia na arena. Nada era real até ser mostrado naquela areia.
Então levantei o cesto.
Uma tabuinha caiu aos meus pés.
Nas bancadas inferiores, os senadores inclinaram-se. O mestre de cerimónias, apanhado de surpresa, tentou rir.
— Uma interrupção encantadora! Talvez uma ninfa perdida…
— Mentiroso! — gritei.
A minha voz não era treinada. Não podia competir com a dele. Mas a palavra, por ser inesperada, abriu espaço.
O mestre parou.
Eu apanhei a tabuinha do chão e ergui-a.
— Estes jogos são mentira!
A multidão reagiu com espanto, depois com risos. Alguns aplaudiram, pensando que fazia parte da encenação.
Lentulo surgiu numa entrada lateral, furioso. Atrás dele, guardas.
Eu sabia que tinha segundos.
— Homens livres são enviados como condenados! Condenados ricos são trocados por escravos! Animais são torturados antes de entrarem! Acidentes são escondidos! Famílias são chantageadas!
As palavras saíram como pedras.
Nas bancadas, um movimento. Alguns riam. Outros perguntavam o que eu dissera. A multidão era enorme; a verdade não viajava depressa sem ajuda.
Então vi Marco.
Estava numa passagem inferior, perto da porta norte. Podia ter fugido. Não fugiu.
Entrou na arena.
A multidão reconheceu-o antes de mim.
— O rapaz do leão! — gritou alguém.
O som espalhou-se.
Marco caminhou até mim e pegou noutra tabuinha do cesto.
— O meu nome foi vendido como oferta voluntária — gritou. — O meu pai assinou por medo. Lentulo assinou por lucro. Próculo autorizou por conveniência.
Um senador levantou-se nas bancadas. Não sabia se era Próculo, mas o rosto dele denunciava pânico.
O mestre de cerimónias tentou recuperar o controlo.
— Povo de Roma, isto é uma farsa preparada por inimigos da ordem!
Marco ergueu a espada sem fio que ainda trazia presa à cintura.
— Esta é a espada que me deram para enfrentar uma fera. Uma lâmina cega para uma coragem falsa. Queriam que eu parecesse herói se sobrevivesse e alimento se morresse.
A multidão murmurou mais alto.
Roma não se comovia facilmente com injustiça. Mas adorava escândalo. E, naquele instante, percebemos que o escândalo podia servir a verdade.
Lentulo avançou com os guardas.
— Prendam-nos!
Antes que chegassem, o meu pai apareceu.
Cambaleava. Tinha sangue no lábio e a túnica rasgada, mas mantinha-se de pé. Na mão trazia uma tabuinha maior, com selos oficiais.
— Eu, Caio Varo — gritou, com uma voz que nunca lhe ouvira — inspector dos subterrâneos do anfiteatro, declaro diante de Roma que falsifiquei relatórios a mando de Lentulo e sob protecção do senador Júlio Próculo!
A multidão explodiu.
Desta vez, não era aplauso. Era fome por queda. O mesmo povo que aplaudia execuções queria agora ver homens poderosos arrastados pela vergonha. Não por bondade. Por espectáculo. Mas talvez, pensei, a verdade pudesse atravessar Roma disfarçada de entretenimento.
O senador que eu vira levantado tentou sair. Outros senadores afastaram-se dele como se a culpa fosse doença contagiosa.
Lentulo percebeu que perdia o controlo.
— Matem-nos se for preciso — disse aos guardas, baixo, mas eu ouvi.
Os guardas hesitaram. Matar-nos diante da multidão transformaria a acusação em certeza. Poucos homens temem a justiça; muitos temem ser vistos.
Foi então que uma voz desceu do camarote imperial.
— Tragam as tábuas.
O silêncio caiu.
Não vi o imperador com clareza, apenas a zona reservada, as túnicas brancas, os guardas, os símbolos. Mas a ordem bastou.
Lentulo congelou.
Dois oficiais atravessaram a arena. Um deles tomou o cesto das minhas mãos. O outro recolheu as tábuas que tinham caído.
O meu pai baixou a cabeça.
Marco segurou a minha mão.
O público aguardava. Pela primeira vez naquele dia, ninguém queria feras, lendas ou combates. Queriam saber que rosto teria a próxima vítima do espectáculo.
As tábuas foram levadas ao camarote. Minutos passaram como horas. O sol queimava-me a nuca. O meu pai respirava com dificuldade. Lentulo suava. Próculo, se era ele, já não estava visível.
Finalmente, o oficial regressou.
— Por ordem imperial, Lentulo será detido para investigação. Caio Varo também será detido, por confissão de falsificação e cumplicidade.
A minha mãe, que eu nem sabia estar ali, gritou nas bancadas.
O meu pai não resistiu.
Os guardas levaram Lentulo primeiro. Ele lançou-me um olhar que prometia vingança, mas a promessa já vinha tarde. Depois vieram buscar o meu pai.
Marco deu um passo.
— Pai…
O meu pai parou.
Pela primeira vez, Marco não o disse como insulto, nem como ferida. Disse como quem encontra uma palavra perdida entre ruínas.
O meu pai olhou para nós.
— Vivei de modo que Roma não vos consiga comprar.
Depois levaram-no.
A multidão começou a aplaudir.
Aplaudiu a nossa desgraça como aplaudira o leão, as caçadas, as farsas, as quedas. Aplaudiu porque era o que sabia fazer. E esse som, mais do que qualquer rugido, ensinou-me a verdadeira face da cidade.
VII. O julgamento que ninguém queria
Durante três dias, não soubemos onde o meu pai estava.
A nossa casa encheu-se de vizinhos que fingiam preocupação para recolher detalhes. Alguns chamavam Marco de herói. Outros diziam que eu fora imprudente. Uma velha do andar de cima trouxe sopa e perguntou, com falsa inocência, se era verdade que o senador Próculo chorara no camarote. A minha mãe fechou-lhe a porta na cara.
Ao quarto dia, fomos chamados ao fórum.
O julgamento não foi anunciado como julgamento. Roma raramente dava nomes limpos às coisas sujas. Chamaram-lhe “audiência administrativa sobre irregularidades nos jogos”. Mas todos sabiam que era mais do que isso. O caso tornara-se conversa em mercados, tabernas, banhos, templos. Não porque Roma tivesse descoberto a consciência, mas porque a queda de homens ligados à arena era demasiado saborosa.
O fórum estava cheio.
O meu pai foi trazido sob guarda. Parecia menor. Não fisicamente; o corpo continuava o mesmo. Mas perdera a armadura invisível dos homens que servem sistemas poderosos e acreditam que isso os torna invulneráveis.
Lentulo veio depois, vestido com dignidade ensaiada. Negou tudo. Disse que as tábuas eram falsificadas. Disse que o meu pai era um funcionário ressentido. Disse que eu era uma rapariga histérica e que Marco fora manipulado pela família para ganhar fama. Disse todas as coisas que homens como ele dizem quando a verdade entra pela porta.
Depois chamaram o meu pai.
Ele confessou.
Não tentou salvar-se. Nomeou pagamentos. Datas. Mortos. Substituições. Explicou como os programas eram alterados para agradar ao público quando a manhã parecia fraca. Explicou como animais eram mantidos famintos para parecerem mais ferozes. Explicou como condenados sem família eram preferidos, porque ninguém reclamaria. Explicou como homens importantes compravam ausências das listas e como escravos sem nome ocupavam os seus lugares.
A cada frase, o fórum estremecia.
Não de horror. De fascínio.
Eu olhava para os rostos e tentava encontrar neles vergonha. Encontrei curiosidade, medo, cálculo, prazer. A mesma expressão da arena, apenas sem bancadas.
Chamaram Marco.
Ele contou a assinatura. A falsa oferta voluntária. O leão. O cuspo na areia. Falou com firmeza, mas as mãos tremiam.
Chamaram-me.
Subi os degraus sentindo que cada olhar me despia. Contei como entrara nos arquivos. Como encontrara as tábuas. Como Lentulo tentara impedir-me. Quando mencionei que quase fui apanhada, alguns homens riram. Um deles murmurou que eu era corajosa para uma rapariga. Olhei para ele até baixar os olhos.
Por fim, chamaram Próculo.
O senador não confessou. Senadores raramente confessam; preferem ser mal interpretados pela história a culpados no presente. Disse que assinara documentos sem conhecer detalhes. Que confiara em subordinados. Que lamentava profundamente qualquer excesso. A palavra “excesso” caiu no fórum como uma pedra coberta de mel.
O veredicto veio ao entardecer.
Lentulo perdeu propriedades, cargos e liberdade. Foi enviado para trabalho forçado numa pedreira distante. Próculo foi afastado temporariamente das funções públicas, multado e convidado a retirar-se da cidade por razões de saúde. Roma protegia os seus até quando os sacrificava. O meu pai foi condenado a dez anos de exílio em Nemauso, sem cargo, sem honra oficial, sem direito a voltar sem autorização.
A minha mãe não chorou quando ouviu.
Marco fechou os olhos.
Eu senti uma tristeza estranha. Queria justiça, mas a justiça parecia pequena diante do que descobríramos. Lentulo cairia. Próculo esconder-se-ia. O meu pai partiria. E os jogos continuariam.
Nessa mesma tarde, enquanto deixávamos o fórum, ouvimos trombetas ao longe.
O Coliseu chamava outra vez o povo.
A minha mãe parou.
— Depois de tudo, ainda vão?
Olhei em volta. As pessoas caminhavam apressadas em direcção ao anfiteatro, comentando o julgamento como se fosse o prólogo perfeito para uma tarde de combates.
Marco apertou os punhos.
— Roma não ouviu nada.
— Ouviu — disse eu. — Mas transformou em espectáculo.
A minha mãe fitou-me com uma dor antiga.
— Então escreve.
— O quê?
— Tudo. Escreve o que viste. Escreve o que fizemos. Escreve o que eles aplaudiram. Escreve para alguém que ainda não nasceu e talvez consiga sentir vergonha por nós.
Foi assim que comecei.
Não como escritora. Não como heroína. Como filha de um homem culpado, irmã de um rapaz usado e cidadã de uma cidade que confundia grandeza com domínio.
VIII. O exílio
A despedida do meu pai aconteceu antes do amanhecer, fora da Porta Capena.
Não houve multidão. Não houve trombetas. Não houve mestre de cerimónias para transformar a miséria em frase bonita. Havia apenas uma carroça, dois guardas, algumas malas e a humidade fria da manhã.
A minha mãe foi connosco.
Durante o caminho, ninguém falou. Roma ainda dormia, ou fingia dormir. Ao longe, o Coliseu era uma sombra contra o céu, silencioso como se nunca tivesse engolido ninguém.
O meu pai esperava junto à carroça. Quando nos viu, pareceu surpreendido.
— Pensei que não viríeis.
A minha mãe respondeu:
— Vim para me despedir do homem que foste. Não sei ainda se quero despedir-me do homem que és.
Ele aceitou a frase como merecida.
Marco ficou a alguns passos. O meu pai olhou para ele.
— Não te peço perdão.
— Óptimo — disse Marco. — Ainda não o tenho.
O meu pai assentiu.
Depois olhou para mim.
— Continuas a escrever?
— Continuo.
— Escreve também a minha culpa.
— Essa é a parte mais fácil.
Ele sorriu com tristeza.
— Escreve então a minha fraqueza. É mais útil. A culpa parece grande, dramática. A fraqueza é mais perigosa, porque se parece com prudência.
Guardei essa frase.
A minha mãe aproximou-se dele. Durante um instante, pensei que o abraçaria. Não abraçou.
— Em Nemauso — disse ela — trabalharás?
— Como copista, talvez. Já não me deixam perto de mecanismos.
— Ainda bem. Sempre foste melhor com palavras não ditas do que com máquinas.
Ele baixou a cabeça.
Um guarda avisou que era hora.
O meu pai subiu para a carroça. Antes de partir, voltou-se uma última vez.
— Flávia.
A minha mãe ergueu os olhos.
— Eu amei-vos mal.
Foi a confissão mais verdadeira que lhe ouvi.
A minha mãe demorou a responder.
— Então aprende, longe, a amar sem destruir.
A carroça partiu.
Marco não acenou. Eu também não. A minha mãe ficou parada até o pó da estrada apagar a figura do homem com quem vivera metade da vida.
No regresso, Roma começava a acordar.
Um vendedor gritava pão quente. Duas crianças corriam atrás de um cão. Um sacerdote varria a entrada de um templo. A vida tinha a crueldade de continuar.
Marco, ao meu lado, disse:
— Achas que ele muda?
Pensei antes de responder.
— Acho que algumas pessoas passam a vida inteira a confundir arrependimento com mudança. Mas talvez o exílio lhe ensine a diferença.
— E a nós?
— A nós cabe não esperar por isso.
Nos meses seguintes, a nossa família tornou-se assunto cada vez menos interessante. Roma tinha fome curta para escândalos antigos. Novos jogos, novas intrigas, novas quedas ocupavam as línguas. Marco recusou propostas de lanistas que queriam transformar o “rapaz do leão” em atracção paga. Uma delas vinha acompanhada de uma bolsa tão pesada que poderia comprar-nos uma casa melhor.
Ele atirou a bolsa de volta ao mensageiro.
— Diz ao teu mestre que a minha coragem não está à venda. Já tentaram.
A minha mãe abriu uma pequena oficina de pão e ervas, perto do Aventino. Mulheres vinham comprar ungüentos para dores, infusões para febres, pão para filhos magros. Algumas vinham apenas para perguntar sobre a arena. A minha mãe aprendeu a responder com silêncio.
Eu escrevia à noite.
Escrevia em tábuas de cera primeiro, depois em rolos baratos quando conseguíamos comprá-los. Recolhia histórias. Um tratador que perdera um irmão numa jaula mal fechada. Uma escrava cujo marido fora enviado no lugar de um condenado protegido. Um antigo gladiador que sonhava todas as noites com o som das bancadas. Uma mãe que reconhecera o filho apenas pela cicatriz no ombro, depois de lhe dizerem que ele fugira.
O horror de Roma não estava apenas nos grandes números, nos milhares de mortos, nos animais trazidos de longe, nos espectáculos inundados, nas lendas transformadas em castigo. Estava na maneira como cada perda era repartida por casas pequenas e depois escondida sob o barulho dos aplausos.
Um dia, Marco trouxe-me um visitante.
Era um homem velho, de barba branca e olhos penetrantes. Chamava-se Sereno e fora discípulo de filósofos. Tinha conhecido pessoas que citavam Séneca como quem segura uma lâmina contra a própria cidade.
Leu algumas páginas minhas.
— Escreves com raiva — disse.
— Devia escrever com quê?
— Com memória. A raiva arde depressa. A memória dura mais.
— Não quero durar. Quero ferir.
Ele sorriu.
— Então ainda pertences à arena.
A frase irritou-me porque era verdadeira.
Sereno começou a visitar-nos. Falava-me de filósofos que desprezavam os jogos, de homens que regressavam das bancadas sentindo-se mais cruéis, mais pobres de alma. Falava de comunidades cristãs perseguidas, de pessoas que viam no anfiteatro não glória, mas prova da doença imperial. Eu não me tornei discípula dele, nem de ninguém. Mas aprendi a olhar para Roma com uma pergunta mais difícil do que “quem é culpado?”
A pergunta era: “quem se habituou?”
E a resposta era quase todos nós.
IX. O regresso do rugido
Dois anos passaram.
Marco tornou-se ajudante num armazém de livros e documentos. Aprendeu a copiar contratos, cartas e poemas. O homem que quase fora transformado em símbolo da arena passou a viver entre palavras. Às vezes, quando ouvia rugidos vindos do Coliseu, a mão dele tremia. Mas nunca voltou lá.
A minha mãe envelheceu depressa, embora continuasse bela da forma austera das mulheres que não pedem licença para sobreviver.
Eu terminei o primeiro rolo daquilo que chamava “A Areia”. Não era apenas a nossa história. Era a história de uma cidade que ensinava os filhos a rir do medo alheio.
Foi nesse ano que chegou a carta do meu pai.
Vinha de Nemauso. A letra era dele, mas mais lenta, mais irregular.
“Flávia, Marco, Lúcia,
Não peço resposta. Sei que até a minha ausência pode ser um peso. Trabalho copiando inventários para um comerciante de azeite. É tarefa humilde, mas limpa. À noite, ensino letras a dois filhos de escravos libertos. Um deles perguntou-me ontem se Roma é tão grande como dizem. Respondi que sim. Perguntou se grande significa boa. Não soube responder sem mentir.
Lúcia, se ainda escreves, escreve isto: o homem que serve a crueldade começa por dizer que apenas cumpre ordens. Depois diz que protege a família. Depois diz que não tem escolha. No fim, percebe que passou anos a construir a própria prisão e a chamar-lhe dever.
Marco, não sei se algum dia me perdoarás. Desejo apenas que vivas uma vida onde o meu nome não seja uma corrente.
Flávia, amei-te com medo de perder o que Roma me dava. Perdi-te por isso. Agora não tenho Roma nem te tenho a ti. Talvez seja justiça suficiente.
Caio.”
A minha mãe leu a carta duas vezes. Depois dobrou-a e guardou-a numa caixa.
— Vais responder? — perguntei.
— Ainda não.
Marco não quis ler no primeiro dia. No segundo, leu. No terceiro, pediu-me papel.
A resposta dele foi curta:
“Não és ainda livre daquilo que fizeste. Mas eu tento ser livre daquilo que me fizeste. Não sei se isto é perdão. Talvez seja o começo.”
A minha mãe enviou a carta.
Eu não escrevi nada. Ou melhor: escrevi no meu rolo.
Meses depois, Sereno trouxe notícias inquietantes. Um novo organizador de jogos ganhara influência. Queria recuperar a grandiosidade dos velhos tempos. Falava-se em espectáculos com água, navios pequenos, prisioneiros vestidos como povos conquistados. Roma, ferida por crises e intrigas, tentava provar que ainda dominava a natureza.
— A crueldade cresce quando o poder tem medo — disse Sereno.
— E o povo?
— O povo confunde medo com festa quando lhe dão vinho suficiente.
Nessa semana, encontrei uma mulher à porta da oficina. Tinha o rosto escondido por um véu simples. Perguntou se eu era Lúcia Varo.
— Sou.
Ela entregou-me uma pulseira de bronze.
— O meu marido morreu nos subterrâneos no acidente que o teu pai escondeu.
Fiquei sem ar.
— Eu sinto muito.
— Sentir é pouco.
— Eu sei.
Ela olhou para mim com dureza.
— Tens escrito nomes?
— Tenho.
— Então escreve o dele. Chamava-se Nério. Gostava de cantar quando arranjava cordas. Tinha uma filha que ainda pergunta quando volta.
Peguei na pulseira.
— Escreverei.
— Não o faças herói. Ele não era. Era apenas homem. Roma já inventa heróis suficientes para esconder os mortos.
Depois foi embora.
Essa frase mudou a minha escrita.
Passei a desconfiar de toda a beleza que tornava a dor suportável demais. Eu queria que os leitores futuros sentissem a poeira na garganta, a vergonha nas mãos, a incomodidade de reconhecer que as civilizações mais orgulhosas podem construir maravilhas sobre fundações de medo.
X. O último jogo
Três anos depois da queda de Lentulo, Marco voltou ao Coliseu.
Não para assistir.
Fomos juntos.
Havia boatos de que um grupo de condenados seria usado numa encenação naval menor, dentro de uma bacia adaptada. O novo organizador chamava aquilo de homenagem ao génio romano. Sereno chamava-lhe desespero com orçamento.
Entre os nomes dos condenados, reconheci um: Tito Nério, irmão da mulher que me dera a pulseira. Fora acusado de roubo num armazém imperial. Talvez fosse culpado. Talvez não. Em Roma, a culpa dos pobres era sempre fácil de provar.
A mulher veio pedir-me ajuda.
— Dizem que tu sabes mexer em papéis.
Eu sabia pouco. Mas Marco sabia mais. Durante semanas, ele aprendera a ler listas, selos, autorizações. Descobrimos uma irregularidade: Tito Nério fora condenado a trabalho forçado, não à arena. A alteração surgira depois, sem assinatura válida.
— Podemos levar isto ao magistrado — disse Marco.
— Até lá, ele já estará morto — respondi.
Então fizemos a única coisa que Roma respeitava: barulho.
Sereno convocou antigos funcionários, viúvas, libertos, homens que deviam favores, mulheres cansadas de perder filhos para listas alteradas. A minha mãe distribuiu cópias simples da denúncia entre clientes. Marco entrou no armazém onde trabalhava e pediu ajuda ao seu patrão, um homem covarde, mas sensível à possibilidade de estar do lado vencedor de um escândalo.
No dia dos jogos, antes da abertura, juntámo-nos junto à entrada principal.
Éramos poucos no início. Trinta, talvez quarenta. Depois cem. Depois mais.
Não gritávamos contra os jogos. Isso teria sido inútil. Gritávamos nomes.
— Nério!
— Sabina!
— Hélvio!
— Dácia!
— Tito Nério!
Cada nome era uma pedra atirada contra a muralha do costume.
As pessoas que chegavam para assistir paravam. Algumas irritavam-se.
— Saiam da frente!
— Queremos entrar!
— Deixem a cidade divertir-se!
Uma mulher do nosso grupo respondeu:
— Também nós queríamos que os nossos voltassem para casa.
Guardas aproximaram-se. O novo organizador, um homem de rosto liso chamado Máximo, veio acompanhado de escribas.
— Quem lidera isto?
Ninguém respondeu.
Ele viu-me.
— Lúcia Varo. Claro. A família que fez carreira com escândalo.
Marco avançou.
— Tens aqui uma lista alterada. Tito Nério não foi condenado à arena.
Máximo sorriu.
— Erros de escribas acontecem.
— Então corrige.
— Hoje? Impossível. O programa está fechado.
Eu ergui uma cópia da sentença original.
— Também estava fechado quando meteram o meu irmão diante de uma fera.
A multidão à entrada murmurou. Alguns reconheceram Marco. O passado, que Roma gostava de transformar em fábula, voltou a ganhar dentes.
Máximo aproximou-se de mim.
— Cuidado, rapariga. A cidade esqueceu Lentulo. Esquecerá também o teu nome.
— Talvez. Mas hoje ainda se lembra o suficiente.
Sereno, que estivera em silêncio, deu um passo.
— Se Tito Nério entrar na arena, estas cópias irão para o fórum, para os templos, para as portas das casas senatoriais. E nelas estará escrito que Máximo iniciou a sua carreira falsificando condenações depois do escândalo de Lentulo. Queres que o teu primeiro grande jogo tenha esse prefácio?
Máximo olhou à volta.
A multidão de espectadores estava impaciente. Mas a impaciência podia virar-se contra qualquer um. O povo queria entrar, sim. Mas também queria drama. E Máximo percebeu que, se nos esmagasse ali, antes dos jogos, nós nos tornaríamos parte deles.
— Tragam Tito Nério — ordenou, por fim.
O homem saiu dos subterrâneos meia hora depois. Magro, assustado, vivo.
A mulher que me dera a pulseira caiu de joelhos.
O público, privado de uma vítima, vaiou. Depois, quando percebeu que havia escândalo, aplaudiu. Sempre o aplauso. Sempre aquela necessidade de transformar tudo em cena.
Mas Tito Nério voltou para a irmã.
Naquele dia, os jogos aconteceram. Outros homens entraram. Outros nomes foram perdidos. Não vencemos Roma. Salvámos um homem. À noite, perguntei a Sereno se isso bastava.
— Para Roma? Não. Para ele? Sim.
Olhei para as minhas mãos.
— Sinto que tentamos esvaziar o mar com uma taça partida.
Sereno sorriu.
— A taça partida da tua mãe começou isto.
Voltei para casa com Marco e a minha mãe. Pela primeira vez em anos, comemos juntos sem sombra de segredo sobre a mesa. Havia tristeza, sim. Havia culpa herdada. Havia ausências. Mas havia também uma pequena região de liberdade entre nós.
Pouco depois, chegou outra carta do meu pai.
Dizia que estava doente. Não pedia visita. A minha mãe leu e ficou muito tempo calada.
— Quero vê-lo — disse Marco.
Fomos os três a Nemauso.
Encontrámo-lo numa casa simples, junto a campos de oliveiras. Estava mais magro, a barba branca nas pontas, as mãos manchadas de tinta. Ao ver Marco, tentou levantar-se depressa demais.
— Devagar — disse a minha mãe.
Ele obedeceu.
O encontro não foi como nos poemas. Ninguém correu para abraços. O perdão, quando verdadeiro, entra devagar, desconfiado, como animal ferido.
Marco sentou-se diante dele.
— Salvámos um homem da arena.
O meu pai fechou os olhos.
— Então fizeste melhor do que eu.
— Fizemos.
Olhou para mim.
— Continuas a escrever?
— Sim.
— Posso ler?
Hesitei.
Depois entreguei-lhe algumas páginas.
Ele leu durante horas, com pausas para respirar. Quando terminou, chorava em silêncio.
— Sou pior no teu relato do que na minha memória.
— A memória protege-nos.
— E a escrita?
— Deve proteger os mortos.
Ele devolveu-me as páginas.
— Então não suavizes.
A minha mãe, junto à janela, olhava os campos.
— Caio — disse ela — eu não voltei para reconstruir a vida que perdeste.
— Eu sei.
— Voltei para saber se ainda havia alguém aqui que merecesse uma despedida inteira.
Ele assentiu.
— Há?
Ela demorou.
— Há alguém a tentar.
Ficámos em Nemauso sete dias. No último, o meu pai caminhou comigo até às oliveiras.
— Lúcia, Roma cairá um dia?
— Todas as coisas caem.
— E o Coliseu?
— Talvez fique.
Ele olhou para o horizonte.
— Seria justo que ficasse vazio. Pedra sem aplausos.
— Talvez um dia as pessoas o visitem e admirem a arquitectura.
— E esquecerão o resto?
— Algumas esquecerão. Outras perguntarão.
Ele tocou nas páginas que eu segurava.
— Então escreve para essas.
Morreu no inverno seguinte.
A minha mãe recebeu a notícia com os olhos secos. Marco saiu para caminhar e só voltou ao anoitecer. Eu sentei-me à mesa e escrevi o nome dele no fim de uma página: Caio Varo, filho de Roma, culpado, cobarde, arrependido, pai. Nenhuma palavra anulava a outra. A verdade raramente é limpa.
XI. A areia silenciosa
Muitos anos passaram.
Tito morreu, depois outros imperadores vieram, cada um convencido de que a cidade começava novamente sob o seu nome. Os jogos mudaram, diminuíram, voltaram a crescer, foram contestados, defendidos, reinventados. Roma era hábil a sobreviver às próprias vergonhas mudando-lhes o título.
Marco casou com a filha de um livreiro. Teve duas filhas. Nunca as levou aos jogos. Quando uma delas perguntou porquê, ele respondeu:
— Porque nem tudo o que uma multidão faz merece ser aprendido.
A minha mãe viveu até idade avançada. No fim, já não falava muito. Mas, quando ouvia aplausos distantes vindos do anfiteatro, fechava a mão como se ainda segurasse a taça de vidro.
Quanto a mim, continuei a escrever.
O meu rolo cresceu em cópias. Passou por mãos de mulheres, libertos, alguns filósofos, alguns cristãos, alguns funcionários envergonhados, alguns jovens que diziam não poder mudar nada e, mesmo assim, queriam saber. Não derrubou Roma. Livros raramente derrubam impérios no momento em que são escritos. Mas às vezes deixam uma fenda por onde o futuro entra.
Anos depois, já com cabelos brancos, voltei sozinha ao Coliseu antes do amanhecer.
Não havia jogos naquele dia. A arena estava vazia. A areia, limpa. As bancadas, silenciosas. Sem multidão, o edifício parecia menos invencível. Era apenas pedra, sombra, engenharia magnífica ao serviço de uma fome vergonhosa.
Desci os olhos para o centro.
Ali, Marco quase morrera. Ali, o meu pai confessara. Ali, eu deixara de ser apenas filha e me tornara testemunha.
Toquei na parede fria.
Pensei em todos os nomes que nunca escrevi. Em todos os que não tiveram irmã, mãe, documento, erro administrativo, escândalo útil. Pensei nos animais trazidos de terras distantes para morrer diante de gente que confundia domínio com grandeza. Pensei nos condenados obrigados a vestir lendas que não lhes pertenciam. Pensei nos homens que almoçavam enquanto outros imploravam. Pensei nas crianças que aprendiam a aplaudir antes de aprenderem a duvidar.
E pensei na minha família.
Roma tentara engolir-nos como engolia tudo: primeiro pelo medo, depois pela vergonha, por fim pelo espectáculo. Não conseguiu por completo. Ficámos feridos, partidos, contraditórios. Mas ficámos humanos o suficiente para não bater palmas.
Sentei-me numa pedra e abri o último rolo.
Escrevi:
“Uma civilização não revela a sua alma apenas nas leis que grava, nos aquedutos que ergue, nos templos que consagra ou nas vitórias que celebra. Revela-se sobretudo no sofrimento que permite transformar em diversão. Roma ensinou-nos que a crueldade, quando organizada, pode parecer ordem; quando musicada, pode parecer festa; quando repetida, pode parecer tradição. Mas nenhum aplauso torna inocente aquilo que exige que alguém seja reduzido a coisa.
Eu, Lúcia Varo, filha de um homem que serviu a máquina e irmã de um rapaz que quase foi devorado por ela, escrevo para que o silêncio não vença. Escrevo porque vi uma taça partir-se numa cozinha antes de ver uma família partir-se diante de uma cidade. Escrevo porque a areia esquece depressa, mas a palavra, se sobreviver, pode incomodar os netos dos vencedores.
Que quem leia isto, um dia, ao admirar a pedra, se lembre também dos gritos. Que, ao contemplar os arcos, pergunte quem pagou por eles com medo. Que, ao ouvir falar da glória de Roma, procure no chão o nome dos que não couberam na glória.
E se alguma multidão, em qualquer tempo, voltar a pedir sofrimento em troca de entretenimento, que alguém tenha a coragem de não aplaudir.”
Fechei o rolo.
O sol subia sobre Roma.
Por um instante, a luz tocou a arena vazia e pareceu transformá-la não num templo de morte, mas numa ferida finalmente exposta. Não curada. Talvez nunca curada. Mas vista.
Levantei-me devagar.
À saída, passei por um grupo de visitantes estrangeiros que admiravam a grandeza do edifício. Um rapaz perguntou ao guia se ali tinham morrido muitos homens. O guia respondeu com um gesto vago, como quem não queria estragar a beleza da manhã.
Eu parei.
O rapaz olhou para mim.
— Morreram? — perguntou.
A mãe dele tentou puxá-lo pela mão, embaraçada.
Aproximei-me e respondi:
— Sim. Homens, mulheres, animais, nomes, famílias. Morreu aqui mais do que gente. Morreu aqui a vergonha de muitos que assistiam.
O rapaz ficou sério.
— E porque vinham ver?
Olhei para as bancadas vazias.
— Porque lhes disseram que era normal.
— E era?
Sorri com tristeza.
— Não. Mas quando muita gente chama normal à mesma crueldade, é preciso alguém lembrar o óbvio.
Ele pensou nisso. Depois perguntou:
— E alguém lembrou?
Segurei o rolo contra o peito.
— Alguns tentaram.
Saí para a rua.
Roma fervilhava, eterna na sua própria ilusão. Mas atrás de mim, o Coliseu ficou em silêncio. Não o silêncio inocente das coisas puras, mas o silêncio pesado das coisas que sabem ter sido vistas.
Caminhei para casa, onde a minha mãe já não estava, onde Marco envelhecia entre livros e netas, onde uma taça partida continuava guardada numa caixa como relíquia doméstica. Alguns diriam que a nossa família fora destruída pela arena. Eu prefiro dizer que a arena revelou as fendas que Roma já tinha aberto em nós.
No fim, o meu pai morreu exilado, mas não inteiramente perdido. O meu irmão viveu livre, embora nunca sem cicatrizes. A minha mãe morreu sem voltar a aplaudir nada que não fosse vida. E eu deixei palavras.
Talvez pareça pouco diante de um império.
Mas os impérios, por maiores que sejam, acabam por depender de uma mentira repetida: a de que todos concordaram.
Eu não concordei.
A minha família, quebrada e salva à sua maneira, também não.
E naquela manhã, enquanto o sol subia sobre a cidade que ensinara o mundo a confundir pedra com eternidade, compreendi finalmente o que a minha mãe quis dizer quando partiu a taça.
Há sons que acordam uma casa.
Há outros que acordam a história.