DO LIXÃO AO DIREITO: A TRAJETÓRIA INCRÍVEL DE LÉLIA CAROLINE, A ADVOGADA QUE VENCEU A FOME E TROCOU O BOLSA FAMÍLIA PELA OAB


A trajetória de Lélia Caroline é o tipo de narrativa que desafia a lógica das estatísticas sociais e mergulha profundamente na resiliência do espírito humano. Em um país marcado por desigualdades abismais, sua história não é apenas um relato de ascensão profissional, mas um manifesto de sobrevivência e dignidade. Hoje advogada devidamente inscrita nos quadros da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Lélia carrega em sua memória cicatrizes de um tempo em que a maior vitória do dia não era uma sentença favorável, mas encontrar alimento em condições minimamente consumíveis dentro de um aterro sanitário.
Lélia cresceu sob o teto de uma casa mantida com o esforço hercúleo de sua mãe, Dona Rita de Cássia, que trabalhava como empregada doméstica e enfrentou a solidão de criar a filha praticamente sozinha. A infância de Lélia foi marcada pela escassez mais severa que se pode imaginar. Em um dos relatos mais contundentes de sua vida, ela relembra a proximidade com um aterro sanitário. O que para a maioria da população representa o descarte e o fim, para Lélia e sua comunidade era o símbolo da “esperança”. Ela descreve com uma clareza dolorosa como as crianças corriam em direção aos caminhões de lixo. “Quem ficasse ali na frente pegava as melhores coisas”, recorda ela, mencionando pacotes de arroz, feijão ou massas de milho que eram limpos e serviam de sustento por longos períodos.
Essa fome, longe de paralisá-la, parece ter forjado uma determinação inabalável. O caminho até a graduação em Direito foi pavimentado com dificuldades logísticas e financeiras que fariam muitos desistirem. Durante os anos de faculdade, Lélia dependeu do FIES e de uma rede de apoio mínima. A falta de recursos era tamanha que ela sequer possuía um Vade Mecum — o livro fundamental, considerado a “bíblia” dos estudantes de Direito. Ela só conseguiu ter contato físico com a obra quando já estava na fase final de preparação para o exame da OAB. O deslocamento para as aulas também era uma batalha; houve dias em que perdeu o ônibus por falta de dinheiro ou teve que caminhar longas distâncias sob chuva, chegando a perder os calçados no barro.
O apoio de seu marido, Hélio, foi crucial nessa jornada. Juntos, eles enfrentaram a realidade de não ter dinheiro sequer para o vale-transporte para que ele pudesse acompanhá-la em momentos importantes, como a entrega de documentos ou exames. A formatura de Lélia não teve o brilho das festas luxuosas ou a encenação das grandes cerimônias. Sua foto oficial foi tirada por uma amiga em um gabinete, sem os trajes formais que o momento tradicionalmente exige, mas com uma dignidade que nenhuma toga cara poderia comprar.
Ao receber sua carteira da OAB em 2024, Lélia não apenas realizou um sonho pessoal, mas quebrou um ciclo geracional, tornando-se a primeira de sua família a possuir um curso superior. Ela escolheu o Direito Previdenciário como sua trincheira de atuação, uma decisão fundamentada em sua própria vivência. Lélia deseja ser a voz daqueles que, como ela e sua mãe no passado, são invisibilizados pela sociedade e desassistidos pelo Estado. “Eu gosto de ajudar aquelas pessoas que precisam, as mais vulneráveis”, afirma com a convicção de quem conhece a vulnerabilidade por dentro.
Atualmente, seu escritório funciona de forma modesta em sua casa, adquirida através de programas habitacionais populares. Ao lado de Hélio, ela atua em casos que protegem cidadãos contra golpes e buscam garantir direitos básicos. A imagem de Lélia despachando processos judiciais na Justiça Federal é o contraste perfeito com a menina que corria atrás do caminhão de lixo.
A transição simbólica de sua vida é resumida por ela mesma: “Troquei o cartão do Bolsa Família pela carteira da OAB”. Lélia não renega seu passado; pelo contrário, sente orgulho do auxílio que recebeu e de cada obstáculo que superou. Para ela, o Direito não é apenas uma profissão, é o instrumento de justiça que ela sempre quis ter ao seu lado nos anos de privação. Sua história serve como um farol para milhões de brasileiros, demonstrando que, embora o sistema seja rígido, a força de vontade e a busca incessante pelo conhecimento podem romper as correntes da miséria extrema.