O submundo do crime organizado em São Paulo é regido por leis próprias, invisíveis aos olhos da sociedade civil, mas aplicadas com uma violência cirúrgica e devastadora por aqueles que detêm o poder nas periferias. Quando alguém decide romper essas regras e jogar em dois tabuleiros simultaneamente, o desfecho costuma ser trágico. Esta é a crônica real, fria e documentada sobre a vida e a morte de Roberto Hipólito Rut Causcas, de 29 anos, conhecido no ambiente policial e na criminalidade pelo infame apelido de “Zoio de Gato” devido aos seus olhos claros marcantes. Casado e pai de uma criança de apenas dois anos de idade, Roberto tentava manter a fachada de um homem comum, mas sua biografia estava irremediavelmente entrelaçada com as engrenagens da maior facção criminosa do Brasil.

Para compreender a execução de Roberto, é necessário retroceder no tempo e analisar o seu histórico. Ele não era um novato ou uma vítima inocente que caiu por engano nas teias da criminalidade. Anos antes, Roberto havia participado diretamente de uma ação típica do chamado Tribunal do Crime. Naquela ocasião, ele atuou como o motorista encarregado de transportar uma vítima até um local isolado, onde ela seria executada a mando da facção. Por esse envolvimento, ele acabou sendo preso, cumprindo pena até receber a liberdade no ano de 2023. Ao deixar a prisão, contudo, a sua relação com o crime tomou um rumo ainda mais perigoso e ambicioso: Roberto decidiu se transformar em um informante da polícia.
A atividade de informante, vulgarmente conhecida nas ruas como “X9” ou delator, é considerada a falta mais grave e imperdoável dentro do código de conduta do crime organizado. Roberto passou a monitorar a rotina de traficantes, mapear esconderijos de drogas, identificar rotas de carregamento e repassar essas informações valiosas para policiais. O agravante de toda a situação é que esses agentes da lei também mantinham atividades ilícitas, utilizando os dados fornecidos por “Zoio de Gato” para extorquir criminosos, roubar cargas de facções rivais e obter vantagens financeiras astronômicas. Utilizando as redes sociais e os contatos que ainda possuía no submundo, Roberto lucrava alto, mas assinava, a cada denúncia, a sua própria sentença de morte.
Não demorou para que a cúpula da organização criminosa descobrisse de onde vinham os vazamentos que estavam causando prejuízos milionários. Quando o nome de “Zoio de Gato” foi colocado na lista de procurados da facção, a engrenagem da paranoia foi ativada. Sabendo que estava marcado para morrer, Roberto começou a viver como um fantasma na Região Metropolitana de São Paulo. Ele mudava constantemente de hotel, passava poucas noites no mesmo endereço, evitava rotinas e demonstrava sinais claros de terror psicológico. Ele compreendia perfeitamente a gravidade da sua situação e sabia que, se fosse capturado, não haveria qualquer espaço para negociação ou clemência.
O primeiro aviso real e físico de que o tempo estava se esgotando aconteceu na madrugada em frente a uma casa noturna em Guarulhos, na Grande São Paulo. Roberto estava acompanhado de sua esposa quando foi confrontado por integrantes da facção. Os criminosos o cercaram e perguntaram diretamente se ele era o temido “Zoio de Gato”. Embora tenha tentado negar a identidade inicialmente, os homens já possuíam a confirmação. O diálogo tenso foi registrado em um vídeo que posteriormente circulou nas redes sociais. Entre ameaças de morte explícitas, um dos criminosos disparou uma frase que ecoou com extrema crueldade: “Vou beber o seu sangue”. Para os investigadores da Polícia Civil, essa expressão vai além do sentido literal; ela representa o ápice do ódio e o anúncio de que a execução seria lenta e dolorosa, uma punição exemplar destinada aos traidores.
Após esse confronto público, o destino de Roberto foi selado pela “sintonia do resumo”, o braço da facção responsável por analisar os casos, realizar os julgamentos à revelia e decretar as execuções do Tribunal do Crime. Treze dias após o episódio no bar, na noite de 16 de setembro de 2023, a caçada humana chegou ao seu ato final. Roberto, a esposa e o filho pequeno jantaram em Guarulhos e, para retornar ao lar, solicitaram uma viagem por meio de um aplicativo de transporte. Durante o trajeto, a percepção aguçada de Roberto identificou que um veículo preto os seguia de perto. Tentando desesperadamente testar a suspeita, ele pediu ao motorista do aplicativo para encostar em um posto de combustíveis. O automóvel perseguidor repetiu a manobra, parando um pouco mais à frente e confirmando o pior cenário possível: eles estavam encurralados.
Mesmo ordenando que o motorista seguisse viagem pela Rodovia Presidente Dutra, a fuga foi frustrada. O veículo preto interceptou o carro de aplicativo de forma violenta, forçando uma parada brusca em meio ao tráfego. Homens fortemente armados e usando balaclavas (capuzes que cobrem o rosto) desembarcaram rapidamente. O pânico tomou conta do interior do veículo. Em um ato de puro instinto maternal, a esposa de Roberto agarrou o filho de dois anos no colo, abriu a porta e correu desesperadamente pelo acostamento da rodovia em busca de abrigo na escuridão. Roberto tentou correr na direção oposta, mas foi alcançado e dominado. Enquanto era arrastado, ele gritava repetidamente para as testemunhas: “Eu tenho problema! Eu tenho problema!”, uma tentativa desesperada de sinalizar que aquilo não se tratava de um assalto comum, mas sim de um sequestro direcionado.
Roberto foi jogado à força no banco traseiro do carro dos criminosos e levado para a Favela da Funerária, localizada na Zona Norte de São Paulo. Foi nesse perímetro que o Tribunal do Crime realizou a sua sessão final de tortura, interrogatório e execução. Féis ao sadismo e à necessidade de demonstrar poder perante os demais integrantes, os criminosos filmaram toda a ação. No vídeo, que posteriormente foi interceptado pelo setor de inteligência da polícia, é possível ouvir as ordens dos executores para filmar de perto, desferindo disparos de arma de fogo contra a vítima, com ordens explícitas para desfigurar o rosto de Roberto, em um jargão criminoso conhecido como “deixar sem cara”.
A investigação policial iniciou-se imediatamente após o desaparecimento e a circulação das imagens macabras. Quadro a quadro, os peritos analisaram os detalhes do vídeo para identificar as vozes, as tatuagens e as fisionomias dos assassinos. O primeiro a ser identificado foi Alisson Alexandre Borges, conhecido no mundo do crime pelo vulgo de “TK”. Ele foi flagrado segurando Roberto no momento exato dos disparos. De forma surpreendente, a própria mãe de Alisson o reconheceu nas imagens ao ser confrontada pelas autoridades. “TK” fugiu para o estado da Bahia, mas foi localizado e capturado em uma operação conjunta entre as polícias civis de São Paulo e da Bahia, confessando posteriormente a sua participação no crime.
Outro nome de peso identificado nas investigações foi Jefferson Rodrigues Alexandre, o “Irmão J”, apontado como o responsável por coordenar a logística e o transporte da vítima para o interior da comunidade. Contudo, o elemento que demonstrou a institucionalidade da execução por parte da facção foi a identificação de Michel da Silva, conhecido como “Neymar do PCC”. Segundo a Polícia Civil, Michel ocupava uma posição de liderança na “sintonia do resumo”. A sua presença física na Favela da Funerária durante a execução comprovou que a morte de “Zoio de Gato” não foi um ato isolado de traficantes locais, mas sim uma ordem oficializada e chancelada pela alta cúpula da organização criminosa.
Apesar das prisões efetuadas e do avanço robusto das investigações, o corpo de Roberto Hipólito Rut Causcas nunca foi localizado pelas autoridades. A principal linha de investigação aponta que os restos mortais foram ocultados em um dos muitos cemitérios clandestinos mantidos pela facção nas franjas da capital paulista, inviabilizando até o momento um sepultamento digno por parte de seus familiares. A trajetória de Roberto serve como um lembrete brutal e realista sobre a ilusão do ganho fácil no universo do crime organizado. O homem que outrora ajudou a conduzir vítimas para a morte experimentou, na pele, o mesmo rigor do tribunal que um dia defendeu. No tabuleiro da criminalidade, as peças mudam de lugar rapidamente, provando que aqueles que vivem pela violência e pela traição, invariavelmente, acabam sendo consumidos por elas.
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