A dor do silêncio e a tortura da incerteza moldam a rotina de duas famílias em Cianorte, no noroeste do Paraná. Mais de um mês se passou desde o dia 20 de abril, data em que as primas Letícia Garcia Mendes e Estela Dalva Melegari Almeida foram vistas pela última vez. O que começou como um passeio casual transformou-se em um dos enigmas policiais mais angustiantes da região profunda do estado. Sem respostas concretas, sem rastros evidentes e sem a localização das jovens, as mães Ana e Maria romperam o silêncio em um apelo público carregado de lágrimas, desespero e uma necessidade vital de justiça.

O ponto de virada na vida das jovens ocorreu quando elas aceitaram o convite de um homem que conheciam socialmente. Cleiton da Silva, indivíduo que transitava pelo círculo de convivência das primas, apresentou-se a elas sob o nome falso de Davi. Demonstrando uma proximidade que disfarçava suas reais intenções, ele chegou a ir até o portão da residência da família por diversas vezes, construindo uma relação de aparente confiança que culminou no fatídico convite para uma viagem até Paranavaí. Letícia, descrita pela mãe como uma jovem de coração puro e apaixonada por crianças, chegou inclusive a acompanhar Cleiton em uma visita ao filho dele na cidade de Mandaguari dias antes do sumiço, evidenciando que as vítimas não suspeitavam do perigo iminente.
A reconstrução dos passos das jovens pelas autoridades revelou que, após saírem de Cianorte em direção a Paranavaí, o grupo frequentou uma casa noturna da cidade. Imagens de câmeras de segurança e postagens coletadas em redes sociais serviram como os últimos registros visuais de Letícia e Estela sorrindo e agindo normalmente. No entanto, após essa noite, a comunicação com os familiares cessou abruptamente. O mistério adensou-se drasticamente quando, dias depois do desaparecimento, Cleiton retornou sozinho para a cidade de Cianorte, não forneceu explicações coerentes sobre o paradeiro das primas e desapareceu logo em seguida, tornando-se o principal fugitivo da Justiça e o alvo central das investigações conduzidas pelo Delegado Dr. Luiz Fernando.

A complexidade para capturar Cleiton reside em sua habilidade de camuflagem social. Conhecido pelos apelidos de “Dog Dog” ou “Sagaz”, o suspeito utilizava diferentes identidades e registros falsos para operar no cotidiano e escapar do radar policial. A fotografia mais recente obtida pelos investigadores provém de um cadastro que ele realizou em uma plataforma de transporte por aplicativo, onde utilizava o nome de Vítor. Autoridades alertam que a fisionomia atual de Cleiton pode estar alterada em comparação com registros fotográficos antigos de anos anteriores, embora uma característica física marcante permaneça: uma grande tatuagem de um anjo que cobre suas costas. O último sinal emitido pelo telefone celular do investigado foi rastreador na região de Cruzeiro do Oeste, indicando uma rota de fuga que sugere uma tentativa de alcançar a região de fronteira. Posteriormente, imagens de monitoramento urbano detectaram a passagem do suspeito conduzindo uma motocicleta obtida em Cianorte.
Diante do sumiço prolongado, a Polícia Civil do Paraná passou a trabalhar com frentes investigativas distintas, concentrando esforços na hipótese técnica de um duplo homicídio ou feminicídio, embora formalmente o caso ainda seja tratado na categoria de desaparecimento devido à ausência de vestígios físicos das vítimas. Forças de segurança realizaram varreduras intensas em áreas rurais, incluindo canaviais localizados na região de Castelo Branco, e perícias em quadrantes geográficos situados entre os municípios de Flórida, Ângulo, Mirador, Mandaguaçu e Floresta, seguindo pistas originadas de denúncias anônimas. Contudo, nenhuma das buscas rurais resultou na localização de corpos ou pertences das jovens.
Recentemente, as investigações registraram um avanço logístico significativo com a prisão de Caroline, ex-companheira de Cleiton. A captura ocorreu na cidade de Paraguaçu Paulista, no interior do estado de São Paulo, coordenada por equipes policiais que monitoravam a rede de contatos do foragido. Caroline é apontada pelas investigações como a peça-chave que garantia a subsistência do suspeito na clandestinidade, fornecendo apoio financeiro constante e suporte logístico para que ele permanecesse oculto das autoridades. Recambiada para a delegacia, a mulher optou pelo direito constitucional de permanecer em silêncio durante seu depoimento oficial, recusando-se a colaborar com informações que pudessem revelar o esconderijo de Cleiton ou o destino dado às duas primas.
O impasse gerado pelo silêncio dos envolvidos evoca na comunidade lembranças de episódios trágicos anteriores na região, como o caso ocorrido no município vizinho de Tapejara, onde as buscas por quatro cidadãos desaparecidos estenderam-se por quarenta e cinco dias até que os corpos fossem finalmente localizados em uma área de mata isolada. O temor de um desfecho semelhante assombra os moradores de Cianorte, mas não diminui a resiliência das mães. Unidas pela tragédia, Ana e Maria transformaram a dor em uma vigília constante. Para elas, a ausência de provas materiais e a falta de localização de corpos representam um fio de esperança de que Letícia e Estela possam estar vivas em algum cativeiro.

Em um pronunciamento direcionado diretamente ao captor, a mãe de Letícia fez um apelo pautado pela sensibilidade e pelo desespero materno. Relembrando o momento em que confiou na postura do homem que frequentava seu portão, ela clamou para que ele se conscientizasse de sua condição de pai e revelasse a verdade. A exigência das famílias é clara: o encerramento do ciclo de mentiras e a devolução das jovens, independentemente do estado em que se encontrem, para que a agonia que congelou a vida daquelas duas casas possa finalmente ter um fim. A Polícia Civil reforça a importância da colaboração popular e solicita que qualquer informação que ajude a identificar o paradeiro de Cleiton da Silva ou das jovens Letícia e Estela seja transmitida de forma totalmente anônima e segura através do canal Disque-Denúncia 181.